domingo, 15 de fevereiro de 2009

Walcyr Carrasco


CRÔNICA

A loucura de cada um
Foi-se o tempo em que chamar alguém de paranóico era xingamento
Walcyr Carrasco


O mundo anda tão doido que paranóia se transformou em sintoma de saúde. É incrível dizer uma coisa dessas. Quando era novinho, chamar alguém de paranóico era xingamento dos feios. Algo para cortar relações, no mínimo. Outro dia ouvi uma amiga:

– Estou absolutamente paranóica. Não saio mais de casa.

Alguém da turma se levantou para aconselhar? Pelo contrário. Elogiaram.

– Você faz muito bem – concordou um rapaz.

– Não dá mais para sair de casa.

E aí as histórias começam a ser desfiadas. Um foi rendido quando entrava na garagem.

– Foi uma sorte! Só levaram o carro!

Roubarem o carro agora é sorte? Pois é. Virou sorte.

Outra conheceu um rapaz pela internet. O encontro foi na praça de alimentação de um shopping. Papo maravilhoso. E mais: o sujeito era personal trainer. Corpo malhadíssimo. Barriga de tanque. Ela, trintona e meio fora do peso, nem conseguia acreditar. Ele falou sobre sua atração por mulheres mais velhas. Na despedida, surpresa das surpresas. O rapaz fez questão de pagar a conta. Saiu nas nuvens. Novo compromisso marcado para a noite de sábado. Passou três dias sonhando. Chegou a examinar os armários, imaginando onde ele colocaria as roupas assim que fossem morar juntos. Já estava decidida a se casar e comemorar bodas de prata. Contou a aventura à melhor amiga.

– Sabe onde ele mora? – inquiriu a outra.

Percebeu que tinha dado o número do apartamento, telefone, tudo. Dele, pouco sabia. Havia uma explicação. O rapaz, vindo do interior, aparentemente, não estava nadando em dinheiro. Talvez morasse em uma quitinete. Poderia ter ficado sem jeito de revelar a modéstia de seu endereço.

– Telefone fixo, ele tem? – continuou o questionário.

– Só o celular! – gemeu a apaixonada.

– Vai sair sozinha, de noite, com um cara que só deu o celular?

Passou a noite sem dormir, revolvendo-se na cama. Chorou.

No sábado, a amiga chegou às 4 da tarde.

– É melhor não se arriscar. Venha ao cinema comigo.

Assistiu ao filme pensando nele. Jantaram no japonês. Passaram a noite toda falando sobre como seria bom ter um relacionamento. Mais tarde, no apartamento, teve vontade de chorar. Ele deixara quatro recados na secretária eletrônica.

Lamentou-se com a amiga no dia seguinte.

– Se ele insistiu tanto, é porque tinha má intenção.

– Ou estava gostando de mim – choramingou.

Silêncio constrangedor do outro lado.

– Por que um garotão ia se interessar por você?

Desligou, sentindo-se salva. E absurdamente infeliz.

Dois amigos mudaram-se para uma casa lindíssima. De esquina. Estão cercados por fios eletrificados. Câmeras. Sensores. Segurança na porta. Um cômodo de concreto, blindado, com uma linha telefônica. Só falta chegarem os cachorros, de uma raça feroz. Os filhotes já estão encomendados.

– Não há o risco de os cães devorarem alguma visita? – pergunto timidamente, já pensando em meus próprios fundilhos.

Os dois se olham, pensativos.

– Impossível viver sem proteção.

Há alguns anos, se alguém pensasse em morar cercado por tantos apetrechos, seria até esquisito. Hoje, dá inveja.

Em tempo: segundo o Aurélio, paranóia é "uma psicopatia (...) evoluindo para delírios persecutório e de (...)". Mas a palavra anda mudando de sentido. Só os psiquiatras ainda dizem que é doença. Para simples mortais como eu, virou uma coisa normalíssima. Daqui a pouco, vai se transformar em elogio. Que tempos, hein?

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Vaidade

Vaidade
Florbela Espanca


A um grande poeta de Portugal



Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade !


Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo ! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade !
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita !


Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada !


E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho ... E não sou nada! ...


Livro de mágoas (1919)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Céu




"Há mais mistérios entre o Céu e a Terra
do que sonha a nossa vã filosofia."


William Shakespeare

António Vieira

" António Vieira é de fato o maior prosador - direi mais, é o maior artista - da língua portuguesa."
Fernando Pessoa, célebre poeta português

Sugestão de leitura:

Nova Postura

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Digo e re-digo: Cegos

Cegos

Há dias que não sabemos nada: quem somos nem o que queremos.
Há dias que tudo parece estar errado.
Você do outro lado do rio grita por socorro e aparecem barcos prontos a te ajudar..., mas eles não o vêem. Ninguém te vê.
Sozinho.
Escuro.
Vazio.
Medo.
Medo.
Assim diria o poeta " É solitário andar por entre a gente/ É nunca contentar-se de contente"
Que coisa indigna é essa que nos atrapalha a vida? Insegurança? Covardia?
Honra!? Onde estão os homens amados e honrados?
Onde está a Verdade?
Verdade?
Deus?
Quem é Deus? Eis que te pergunto, dê-me razões, dê-me números.
Fale me de Deus.
É somente Deus que resta e nada mais.
Estou sozinho: eu e eu.
Esse contato próximo comigo me envolve de medo, de um certo pavor... inexplicável.
Medo de mim !
Eis o que sou: um covarde com medo da sombra. Ou será a sombra com medo de um covarde?
Dúvidas. Dúvidas. Dúvidas.
Pontos finais até a última gota de sangue . . .
O que é um ponto final?
O fim? Onde está o começo? O começo termina no fim ou o fim começa no começo?
Perguntas e mais perguntas e não me entendo.
Surrealismo total: viagem ao céu de Dali contemplando as estrelas simbólicas de Meireles, ó grande Cecília - heroína guerreira nessa sútil passagem de um lado para o outro...
Ela bem nos disse que temos um medo, medo de acabar. Mas eu pergunto: no fim ou no começo?
O que precisamos é de Liberté e da alma de Che Guevara, ou quem sabe de algum boêmio que tenha visto a Vida com olhos não pré-ensinados. Sim! Eles - aqueles comportados senhores de gravata e doutores da"vida", da guerra e do mundo - nos ensinam a ver a Vida - da forma mais errônea e ridícula que se possa ousar imaginar.
Miserables! Acabaram com nossos olhos. Estamos cegos, todos cegos.
Ninguém me vê e eu não vejo ninguém.
Estamos sozinhos.
Escuro.
Vazio.
Medo.
Medo.

Paula Cristina

Soneto 003

003
Camões

Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar me, e novas esquivanças;
que não pode tirar me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças, andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.
Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.

Soneto - Camões

114

Ah! Fortuna cruel! Ah! duros Fados!
Quão asinha em meu dano vos mudastes!
Passou o tempo que me descansastes,
agora descansais com meus cuidados.
Deixastes-me sentir os bens passados,
para mor dor da dor que me ordenastes;
então nü'hora juntos mos levastes,
deixando em seu lugar males dobrados.
Ah! quanto milhor fora não vos ver,
gostos, que assi passais tão de corrida,
que fico duvidoso se vos vi:
sem vós já me não fica que perder,
se não se for esta cansada vida,
que por mor perda minha não perdi.

FONTE: http://www.bibvirt.futuro.usp.br/content/view/full/1899#114

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Ensinamento

Ensinamento
Adélia Prado

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente,
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

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Poesia reunida, Editora Siciliano, 1991 - S.Paulo, Brasil

sábado, 7 de fevereiro de 2009

L´essentiel...


Le Petit Prince







Chapitre XXI



Le Petit Prince, Antoine de Saint Exupéry

C'est alors qu'apparut le renard.
-Bonjour, dit le renard.
-Bonjour, répondit poliment le petit prince, qui se tourna mais ne vit rien.
-Je suis là, dit la voix, sous le pommier.
-Qui es-tu? dit le petit prince. Tu es bien joli…
-Je suis un renard, dit le renard.
-Viens jouer avec moi, lui proposa le petit prince. Je suis tellement triste…
-Je ne puis pas jouer avec toi, dit le renard. Je ne suis pas apprivoisé
-Ah! Pardon, fit le petit prince.
Mais après réflexion, il ajouta :
-Qu'est-ce que signifie "apprivoiser"?
-Tu n'es pas d'ici, dit le renard, que cherches-tu?
-Je cherche les hommes, dit le petit prince.Qu'est-ce que signifie "apprivoiser"?
-Les hommes, dit le renard, ils ont des fusils et ils chassent. C'est bien gênant! Il élèvent aussi des poules. C'est leur seul intérêt. Tu cherches des poules?
-Non, dit le petit prince. Je cherche des amis.Qu'est-ce que signifie "apprivoiser"?
-C'est une chose trop oubliée, dit le renard. Ca signifie "Créer des liens…"
-Créer des liens?
-Bien sûr,dit le renard. Tu n'es encore pour moi qu'un petit garçon tout semblable à cent mille petits garçons. Et je n'ai pas besoin de toi. Et tu n'a pas besoin de moi non plus. Je ne suis pour toi qu'un renard semblable à cent mille renards. Mais, si tu m'apprivoises, nous aurons besoin l'un de l'autre. Tu seras pour moi unique au monde. Je serai pour toi unique au monde…
-Je commence à comprendre, dit le petit prince. Il y a une fleur… je crois qu'elle m'a apprivoisé…
-C'est possible, dit le renard. On voit sur la Terre toutes sortes de choses…
-Oh! ce n'est pas sur la Terre, dit le petit prince. Le renard parut très intrigué :
-Sur une autre planète ?
-Oui.
-Il y a des chasseurs sur cette planète-là ?
-Non.
-Ca, c'est intéressant! Et des poules ?
-Non.
-Rien n'est parfait, soupira le renard.
Mais le renard revint à son idée :
-Ma vie est monotone. Je chasse les poules, les hommes me chassent. Toutes les poules se ressemblent, et tous les hommes se ressemblent. Je m'ennuie donc un peu. Mais si tu m'apprivoises, ma vie sera comme ensoleillée. Je connaîtrai un bruit de pas qui sera différent de tous les autres. Les autres pas me font rentrer sous terre. Le tien m'appelera hors du terrier, comme une musique. Et puis regarde! Tu vois, là-bas, les champs de blé? Je ne mange pas de pain. Le blé pour moi est inutile. Les champs de blé ne me rappellent rien. Et ça, c'est triste! Mais tu a des cheveux couleur d'or. Alors ce sera merveilleux quand tu m'aura apprivoisé! Le blé, qui est doré, me fera souvenir de toi. Et j'aimerai le bruit du vent dans le blé…
Le renard se tut et regarda longtemps le petit prince :
-S'il te plaît… apprivoise-moi! dit-il.
-Je veux bien, répondit le petit prince, mais je n'ai pas beaucoup de temps. J'ai des amis à découvrir et beaucoup de choses à connaître.
-On ne connaît que les choses que l'on apprivoise, dit le renard. Les hommes n'ont plus le temps de rien connaître. Il achètent des choses toutes faites chez les marchands. Mais comme il n'existe point de marchands d'amis, les hommes n'ont plus d'amis. Si tu veux un ami, apprivoise-moi!
-Que faut-il faire? dit le petit prince.
-Il faut être très patient, répondit le renard. Tu t'assoiras d'abord un peu loin de moi, comme ça, dans l'herbe. Je te regarderai du coin de l'oeil et tu ne diras rien. Le langage est source de malentendus. Mais, chaque jour, tu pourras t'asseoir un peu plus près…
Le lendemain revint le petit prince.
-Il eût mieux valu revenir à la même heure, dit le renard. Si tu viens, par exemple, à quatre heures de l'après-midi, dès trois heures je commencerai d'être heureux. Plus l'heure avancera, plus je me sentirai heureux. à quatre heures, déjà, je m'agiterai et m'inquiéterai; je découvrira le prix du bonheur! Mais si tu viens n'importe quand, je ne saurai jamais à quelle heure m'habiller le coeur… il faut des rites.
-Qu'est-ce qu'un rite? dit le petit prince.
-C'est quelque chose trop oublié, dit le renard. C'est ce qui fait qu'un jour est différent des autres jours, une heure, des autres heures. Il y a un rite, par exemple, chez mes chasseurs. Ils dansent le jeudi avec les filles du village. Alors le jeudi est jour merveilleux! Je vais me promener jusqu'à la vigne. Si les chasseurs dansaient n'importe quand, les jours se ressembleraient tous, et je n'aurait point de vacances.
Ainsi le petit prince apprivoisa le renard. Et quand l'heure du départ fut proche :
-Ah! dit le renard… je preurerai.
-C'est ta faute, dit le petit prince, je ne te souhaitais point de mal, mais tu as voulu que je t'apprivoise…
-Bien sûr, dit le renard.
-Mais tu vas pleurer! dit le petit prince.
-Bien sûr, dit le renard.
-Alors tu n'y gagnes rien!
-J'y gagne, dit le renard, à cause de la couleur du blé.
Puis il ajouta :
-Va revoir les roses. Tu comprendras que la tienne est unique au monde. Tu reviendras me dire adieu, et je te ferai cadeau d'un secret.
Le petit prince s'en fut revoir les roses.
-Vous n'êtes pas du tout semblables à ma rose, vous n'êtes rien encore, leur dit-il. Personne ne vous a apprivoisé et vous n'avez apprivoisé personne. Vous êtes comme était mon renard. Ce n'était qu'un renard semblable à cent mille autres. Mais j'en ai fait mon ami, et il est maintenant unique au monde.
Et les roses étaient gênées.
-Vous êtes belles mais vous êtes vides, leur dit-il encore. On ne peut pas mourir pour vous. Bien sûr, ma rose à moi, un passant ordinaire croirait qu'elle vous ressemble. Mais à elle seule elle est plus importante que vous toutes, puisque c'est elle que j'ai arrosée. Puisque c'est elle que j'ai abritée par le paravent. Puisque c'est elle dont j'ai tué les chenilles (sauf les deux ou trois pour les papillons). Puisque c'est elle que j'ai écoutée se plaindre, ou se vanter, ou même quelquefois se taire. Puisque c'est ma rose.
Et il revint vers le renard :
-Adieu, dit-il…
-Adieu, dit le renard. Voici mon secret. Il est très simple : on ne voit bien qu'avec le coeur. L'essentiel est invisible pour les yeux.
-L'essentiel est invisible pour les yeux, répéta le petit prince, afin de se souvenir.
-C'est le temps que tu a perdu pour ta rose qui fait ta rose si importante.
-C'est le temps que j'ai perdu pour ma rose… fit le petit prince, afin de se souvenir.
-Les hommes on oublié cette vérité, dit le renard. Mais tu ne dois pas l'oublier. Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé. Tu es responsable de ta rose…
-Je suis responsable de ma rose… répéta le petit prince, afin de se souvenir.
Marabá
Gonçalves Dias

Eu vivo sozinha, ninguém me procura!
Acaso feitura
Não sou de Tupá!
Se algum dentre os homens de mim não se esconde:
— "Tu és", me responde,
"Tu és Marabá!"


— Meus olhos são garços, são cor das safiras,
— Têm luz das estrelas, têm meigo brilhar;
— Imitam as nuvens de um céu anilado,
— As cores imitam das vagas do mar!


Se algum dos guerreiros não foge a meus passos:
"Teus olhos são garços",
Responde anojado, "mas és Marabá:
"Quero antes uns olhos bem pretos, luzentes,
"Uns olhos fulgentes,
"Bem pretos, retintos, não cor d'anajá!"


— É alvo meu rosto da alvura dos lírios,
— Da cor das areias batidas do mar;
— As aves mais brancas, as conchas mais puras
— Não têm mais alvura, não têm mais brilhar.


Se ainda me escuta meus agros delírios:
— "És alva de lírios",
Sorrindo responde, "mas és Marabá:
"Quero antes um rosto de jambo corado,
"Um rosto crestado
"Do sol do deserto, não flor de cajá."


— Meu colo de leve se encurva engraçado,
— Como hástea pendente do cáctus em flor;
— Mimosa, indolente, resvalo no prado,
— Como um soluçado suspiro de amor! —


"Eu amo a estatura flexível, ligeira,
Qual duma palmeira",
Então me respondem; "tu és Marabá:
"Quero antes o colo da ema orgulhosa,
Que pisa vaidosa,
"Que as flóreas campinas governa, onde está."


— Meus loiros cabelos em ondas se anelam,
— O oiro mais puro não tem seu fulgor;
— As brisas nos bosques de os ver se enamoram
— De os ver tão formosos como um beija-flor!


Mas eles respondem: "Teus longos cabelos,
"São loiros, são belos,
"Mas são anelados; tu és Marabá:
"Quero antes cabelos, bem lisos, corridos,
"Cabelos compridos,
"Não cor d'oiro fino, nem cor d'anajá,"


————


E as doces palavras que eu tinha cá dentro
A quem nas direi?
O ramo d'acácia na fronte de um homem
Jamais cingirei:


Jamais um guerreiro da minha arazóia
Me desprenderá:
Eu vivo sozinha, chorando mesquinha,
Que sou Marabá!

Navio Negreiro

Navio Negreiro
Castro Alves


I

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.

'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...
..........................................................

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.


II


Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.

Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...


III


Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!


IV


Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...


V


Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!


Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...

Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...


VI


Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Companheiros

Companheiros
Mia Couto


quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho

e quando ficar sem mim
não tereri escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados

deixo
a paciência dos rios
a idade dos livros

mas não lego
mapa nem bússola
por que andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me
às vezes
viver

hei-de inventar
um verso que vos faç justiça

por ora
basta-me o arco-íris

em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço

companheiros

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Pequenez...



"Todo aquele, pois, que se fizer pequeno como este menino, este será o maior no reino dos céus."

Mateus, XVIII, 4

O Avarento

Contos & Fábulas


O Avarento

Um avarento, após transformar em ouro todos os seus haveres, fundiu o metal numa única barra, que enterrou em determinado lugar, enterrando, com ela, a própria alma.

Costumava ir diariamente contemplar seu tesouro. Certo dia, um indivíduo, compreendendo sua tortura, resolveu desenterrar a barra e levá-la consigo.

Quando o avarento retornou ao lugar onde enterrara o ouro, encontrou-o vazio. Pôs-se, então, a chorar e a puxar os cabelos. Alguém que por ali passava, após inteirar-se do motivo de tão grande desespero, disse-lhe:

─ Não se entristeça assim, meu amigo! Embora você tivesse ouro, na verdade, não o possuía. Pega uma pedra, esconde-a no mesmo lugar e imagine que ali está o ouro que se foi. A pedra será para você o mesmo que o ouro, pois, pelo que observei, quando o ouro verdadeiro ali estava, você não o utilizava para nada.

MORAL: Ter e não desfrutar é o mesmo que não ter.

Autor Desconhecido

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Justiça ou Vingança?


A justiça selvagem

O desejo de vingança é uma constante na história
humana – e um dos grandes temas da literatura
por Jerônimo Teixeira

Alexandre Dumas (1802-1870) foi o equivalente, na França do século XIX, aos roteiristas da novela das 8 no Brasil de hoje. Românticos e aventurescos, seus livros alcançavam um público vasto e voraz. Um de seus romances mais populares, O Conde de Monte Cristo (tradução de André Telles e Rodrigo Lacerda; Jorge Zahar; 1 376 páginas; 129 reais), acaba de ganhar uma belíssima edição, com notas e ilustrações de época. Narra as desventuras de Edmond Dantès, marinheiro preso sob a acusação falsa de ser partidário do imperador deposto Napoleão Bonaparte (ofensa grave em 1815, tempo da restauração monárquica). Depois de uma fuga espetacular da prisão, Dantès, enriquecido por um providencial tesouro escondido, reinventa-se como o Conde de Monte Cristo e busca destruir aqueles que o desgraçaram. Os exageros folhetinescos de Dumas – vilões que soltam "faíscas de ódio" no olhar – hoje soam um tanto cafonas. No entanto, Monte Cristo sobrevive. Um coração generoso dirá que o apelo da história está na restauração da justiça. O motor do romance, porém, é a vingança. Embora todo cidadão de bem declare sua aversão moral pelo conceito, a vingança delicia leitores há séculos.

"A vingança é um tipo de justiça selvagem" que deve ser "arrancada, como uma erva daninha, pela lei", escreveu o filósofo Francis Bacon, no século XVII. De fato, o estado de direito só pode existir quando a lei substitui as velhas retaliações tribais. O aparato judicial moderno deve, portanto, se afastar da vingança. No entanto, esta sempre fará parte da natureza humana. E é nessa condição que se tornou um dos motivos literários mais antigos – basta pensar no grego Aquiles, na Ilíada de Homero, arrastando com sua biga o cadáver do troiano Heitor, para vingar a morte do amigo Pátroclo.

Cada período histórico tem sua sanha vingativa particular. Na tragédia grega do século V a.C., a vingança costumava ser exercida contra o próprio sangue: Medeia (leia o quadro abaixo) é o exemplo mais terrível. Na virada do século XVI para o XVII, época áurea do teatro inglês, houve mesmo um subgênero particular devotado ao tema – as "peças de vingança". Thomas Kyd, que inaugurou o filão com A Tragédia Espanhola (1587), é também o provável autor de uma primeira versão, que se perdeu, de Hamlet – história hoje conhecida e admirada na versão de Shakespeare. Em sociedades mais dinâmicas que as monarquias retratadas por Kyd e Shakespeare, a vingança começa a se amalgamar com o ressentimento social. Heathcliff, o herói perverso de O Morro dos Ventos Uivantes (1847), clássico romântico da inglesa Emily Brontë, busca a desforra de humilhações sofridas na infância, quando foi adotado por uma família de proprietários rurais que o tratou como servente. De certo modo, ele é o avô dos marginais cariocas que caçam os ricos nos contos de Rubem Fonseca. Com suas enormes diferenças, cada um desses autores explorou uma ambivalência humana fundamental: a fome por justiça convive muitas vezes com a sede de sangue.

Prato que se come frio


Alguns vingadores célebres da literatura

Em família
A tragédia grega pôs em cena vários mitos em que a vingança era exercida dentro da própria família, com assassinatos terríveis de filhos e mães
Exemplo
O caso mais extremo é o de Medeia, na peça de Eurípides: ela mata os próprios filhos para se vingar de Jasão, que a trocou por outra mulher


O injustiçado
Na sociedade mais dinâmica do século XIX, a ascensão social tornou-se fundamental nas tramas – e também a injustiça
Exemplo
Para Edmond Dantès, protagonista de O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, ficar podre de rico é o pré-requisito para a vingança

O ofendido
O vingador busca reparação para o que julga ser uma grande ofensa – da qual o suposto ofensor às vezes nem tem consciência
Exemplo
Em O Barril de Amontilhado, de Edgar Allan Poe, o vingador empareda seu inimigo numa catacumba. O conto não diz que ofensa ele cometeu para receber esse castigo terrível

O ressentido
Geralmente pobre, o vingador tem raiva dos mais ricos, a quem atribui sua condição humilhante
Exemplo
O personagem central de O Cobrador, conto de Rubem Fonseca, é um pobre-diabo que encontra a realização matando os ricaços

O usurpado
As "peças de vingança" foram um gênero popular no teatro inglês entre os séculos XVI e XVII. O herói vingador é um cortesão injustiçado ou um nobre cujos direitos são usurpados
Exemplo
Hamlet, de Shakespeare, traz à cena um príncipe que vinga a morte do pai – mas essa trama quase se perde no meio de elucubrações filosóficas.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Infância

" L´essentiel est invisible pour les yeux"

To be free...

I wish I Knew how it would feel to be free
Lighthouse Family


I wish I knew how it would feel to be free
I wish I could break all the chains holding me
I wish I could say all the things that I should say
Say 'em loud say 'em clear
For the whole wide world to hear

I wish I could share
All the love that's in my heart
Remove all the bars that keep us apart
And I wish you could know how it is to be me
Then you'd see and agree that every man should be free

I wish I could be like a bird in the sky
How sweet it would be if I found I could fly
Well I'd soar to the sun and look down at the sea
And I'd sing cos I know how it feels to be free

I wish I knew how it would feel to be free
I wish I could break all the chains holding me
And I wish I could say all the things that I wanna say
Say 'em loud say 'em clear
For the whole wide world to hear
Say 'em loud say 'em clear
For the whole wide world to hear
Say 'em loud say 'em clear
For the whole wide world to hear

One love one blood
One life you've got to do what you should
One life with each other
Sisters, brothers

One love but we're not the same
We got to carry each other Carry each other
One One One One One...

I knew how it would feel to be free
I knew how it would feel to be free

Quase

QUASE
Carmélia Aragão


“I ERASED THE MESSAGES. I WILL FORGET YOU”.



Na sala da repartição olhava os colegas muito atarefados. Processos e processos! Ainda não fazia um mês que trabalhava ali, mas já sentia o quanto eram, ou pelo menos pareciam ser importantes os serviços da repartição. Mas ela estava lá, como um sonho. Invisível. Porque já fazia algumas semanas que trabalhava, mas não sabia direito qual sua função. E, quando o marido, à noite, perguntava se estava cansada sentia-se constrangida em dizer que não. Aquilo lhe ocupava as tardes. Era como um espaço vazio de quem não viveu nada ou não viu o tempo passar. Começou a ler. Primeiro comprou uns romances policiais na banca da esquina, depois os grandes mestres da literatura local, depois da nacional e, por fim, da universal. Engendrou pela Filosofia, Astronomia, Física e também no estudo de línguas exóticas. Aquele lugar era um objeto perdido, esquecido. Os funcionários eram cobertos por uma pele grossa e gasta como plástico de brinquedo velho. E o mar que batia nas muradas do edifício tornava as tardes mais vagarosas e infinitas como a paisagem de um barco fixada na parede de um consultório médico. Um dia, fora interrompida em meio aos seus estudos de baltusanês.

— O diretor quer falar com a senhora.

Ela o seguiu. Andaram labirinticamente até a diretoria. Acho que não saberia retornar sozinha. Dentro do gabinete, ao invés dos grandes arquivos e pilhas e pilhas de processos que tomavam toda repartição até mesmo no banheiro, havia uma belíssima cama em estilo colonial com travesseiro de plumas e um homem de meia idade, trajando camisolões do séc. XIX, apontou em sua direção:

— Sente-se.

Sentar-se não era uma sugestão, mas uma sentença irrecusável e sem volta. Como um livro mal escrito ou um pressentimento preciso, ela já sabia a que fora convocada.

— A senhora foi promovida.

Já havia fechado a porta da sala e descido à garagem quando percebeu que as chaves do carro haviam ficado em cima da mesa.

— Merda!

O celular chamou.

— Merda!

Na secretaria, estavam organizando uma festa graças a sua promoção. Jurou que quando chegasse à casa contaria tudo ao marido e que por nada no mundo voltaria a trabalhar ali, por nada! Seria difícil que ele aceitasse, porém não iria mais se submeter aquele mundo que ela abafou como um segredo de tão inacreditável. Não sabia ao certo, mas parece que preparavam mais uma cama.

Pronominais

Pronominais
Oswald de Andrade


Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

sábado, 31 de janeiro de 2009

Sueños




Sueños
Diego Torres
Composição: Cachorro López - Sebástian Schon - Diego Torres

Cuando la noche se acerca
hay algo en mi alma que vuelve a vibrar
con la luz de las estrellas
en mis sentimientos te vuelvo a encontrar

Quiero que me mires a los ojos
y que no preguntes nada más
quiero que esta noche sueltes
toda esa alegría que ya no puedes guardar.

Paso las horas fumando
oyendo en el viento la misma canción
porque el tiempo que vale
lo marca el latido de mi corazón

Quiero que me mires a los ojos
y que no preguntes nada más
quiero que esta noche sueltes toda esa alegría
que ya no puedes guardar

Deja que tus sueños sean olas que se van
libres como el viento en mitad del mar
creo que la vida es un tesoro sin igual
de los buenos tiempos siempre quiero más

Soy como el agua del río
y por el camino me dejo llevar
porque aprendí que la vida
por todo lo malo algo bueno te da


Quiero que me mires a los ojos
y que no preguntes nada mas
quiero que esta noche sueltes toda esa alegría
que ya no puedes guardar

Deja que tus sueños sean olas que se van
libres como el viento en mitad del mar
creo que la vida es un tesoro sin igual
de los buenos tiempos siempre quiero más.

Deja que tus sueños sean olas que se van...
creo que la vida es un tesoro sin igual
me dejo llevar...

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Eu só peço a Deus

Eu só peço a Deus
Que a dor não me seja indiferente
Que a morte não me encontre um dia
Solitário sem ter feito o q'eu queria

Eu só peço a Deus
Que a injustiça não me seja indiferente
Pois não posso dar a outra face
Se já fui machucada brutalmente

Eu só peço a Deus
Que a guerra não me seja indiferente
É um monstro grande e pisa forte
Toda fome e inocência dessa gente

Eu só peço a Deus
Que a mentira não me seja indiferente
Se um só traidor tem mais poder que um povo
Que este povo não esqueça facilmente

Eu só peço a Deus
Que o futuro não me seja indiferente
Sem ter que fugir desenganando
Pra viver uma cultura diferente

Que el dolor no me sea indiferente,
Que la reseca Muerta no me encuentre
Vacio y solo sin haber hecho lo suficiente.

Solo le pido a Dios
Que lo injusto no me sea indiferente,
Que no me abofeteen la otra mejilla
Despues que una garra me araño esta suerte.

Solo le pido a Dios
Que la guerra no me sea indiferente,
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente.

Solo le pido a Dios
Que el engaño no me sea indiferente
Si un traidor puede mas que unos cuantos,
Que esos cantos no lo olviden facilmente.

Solo le pido a Dios
Que el futuro no me sea indiferente,
Desahuciado esta el que tiene que marchar
A vivir una cultura diferente.
Mercedes Sosa & Beth Carvalho
-------------
"Se eu pudesse deixar algum presente a você,
deixaria acesso ao sentimento de amar a vida dos seres humanos.
A consciência de aprender tudo o que foi ensinado pelo tempo afora...
Lembraria os erros que foram cometidos para que não mais se repetissem.
A capacidade de escolher novos rumos.
Deixaria para você, se pudesse, o respeito àquilo que é indispensável:
Além do pão, o trabalho.
Além do trabalho, a ação.
E, quando tudo mais faltasse, um segredo:
O de buscar no interior de si mesmo
a resposta e a força para encontrar a saída."

Mahatma Gandhi

Curta Metragem - Festival de Berlim

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Margarita

MARGARITA
Rosalía de Castro

1

¡Silencio, los lebreles
de la jauría maldita!
No despertéis a la implacable fiera
que duerme silenciosa en su guarida.
¿No veis que de sus garras
penden gloria y honor, reposo y dicha?

Prosiguieron aullando los lebreles...
-Los malos pensamientos homicidas!-
y despertaron la temible fiera...
-¡la pasión que en el alma se adormía!-
Y ¡adiós! en un momento,
¡adiós gloria y honor, reposo y dicha!


2

Duerme el anciano padre, mientras ella
a la luz de la lámpara nocturna
contempla el noble y varonil semblante
que un pesado sueño abruma.

Bajo aquella triste frente
que los pesares anublan,
deben ir y venir torvas visiones,
negras hijas de la duda.

Ella tiembla..., vacila y se estremece...
¿De miedo acaso, o de dolor y angustia?
Con expresión de lastima infinita,
no sé qué rezos murmura.

Plegaria acaso santa, acaso impía,
trémulo el labio a su pesar pronuncia,
mientras dentro del alma la conciencia
contra las pasiones lucha.

¡Batalla ruda y terrible
librada ante la víctima, que muda
duerme el sueño intranquilo de los tristes
a quien ha vuelto el rostro la fortuna!

Y él sigue en reposo, y ella,
que abandona la estancia, entre las brumas
de la noche se pierde, y torna al alba,
ajado el velo..., en su mirar la angustia.

Carne, tentación, demonio,
¡oh!, ¿de cuál de vosotros es la culpa?
¡Silencio...! El día soñoliento asoma
por las lejanas alturas,
y el anciano despierto, ella risueña,
ambos su pena ocultan,
y fingen entregarse indiferentes
a las faenas de su vida oscura.


3

La culpada calló, mas habló el crimen...
Murió el anciano, y ella, la insensata,
siguió quemando incienso en su locura,
de la torpeza ante las negras aras,
hasta rodar en el profundo abismo,
fiel a su mal, de su dolor esclava.

¡Ah! Cuando amaba el bien, ¿cómo así pudo
hacer traición a su virtud sin mancha,
malgastar las riquezas de su espíritu,
vender su cuerpo, condenar su alma?

Es que en medio del vaso corrompido
donde su sed ardiente se apagaba,
de un amor inmortal los leves átomos,
sin mancharse, en la atmósfera flotaban.


Sedientas las arenas, en la playa
sienten del sol los besos abrasados,
y no lejos, las ondas, siempre frescas,
ruedan pausadamente murmurando.
Pobres arenas, de mi suerte imagen:
no sé lo que me pasa al contemplaros,
pues como yo sufrís, secas y mudas,
el suplicio sin término de Tántalo.

Pero ¿quién sabe...? Acaso luzca un día
en que, salvando misteriosos límites,
avance el mar y hasta vosotras llegue
a apagar vuestra sed inextinguible.

¡Y quién sabe también si tras de tantos
siglos de ansias y anhelos imposibles,
saciará al fin su sed el alma ardiente
donde beben su amor los serafines!

Fonte: http://www.los-poetas.com/k/rosa1.htm

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Sonhe

Sonhe
Clarice Lispector

Sonhe
Sonhe aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
Porque você possui apenas uma vida
E nela só se tem uma chance
De fazer aquilo que se quer.
Tenha Felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes
Não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
Das oportunidades que aparecem
Em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem a importância.
Das pessoas que passam por suas vidas.
O futuro mais brilhante
É baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
Quando perdoar os erros
E as decepções do passado
A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar...
Duram uma eternidade.

"doce vida doce"

" Os tristes dizem que os ventos gemem. Os alegres, que eles cantam."
Fernando Pessoa

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Livros

"Os livros me ensinaram a pensar, e o pensamento me fez livre."
Ricardo Léon (1877-1943 - poeta, ensaísta e escritor espanhol)

Indicações:
  • As Sete Maravilhas do Mundo Antigo - Peter A. Clayton e Martin J Price. Tradução de Maria Inês Duque Estrada
  • Viagem ao Centro da Terra - Julio Verne. Tradução de Carlos Heitor Cony
  • O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, uma história de amor - Jorge Amado
  • A casa de Bernarda Alba - Federico Garcia Lorca *
  • Dona Rosita, a solteira - Federico Garcia Lorca

_________________

* Federico Garcia Lorca

"..., considerado um dos mais importantes autores espanhóis, foi um dos primeiros artistas a serem assassinados pelos regimes totalitários de direita no início do século 20, no caso, o do general espanhol Francisco Franco. Em sua primeira prisão, determinada por um deputado da direita católica, Lorca foi acusado de ser mais perigoso com a caneta do que outros com o revólver."

"A lírica da liberdade" por Clenir Bellezi de Oliveira. IN: Revista Discutindo Literatura - ano 2, nº 12. Escala Educacional

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009




Palavras

"As palavras podem afagar ou machucar; criar ou destruir; conectar ou fragmentar. Uma vez faladas nunca podem ser revogadas. Elas vibram ao redor, além do nosso controle, produzindo reações positivas ou negativas. Minha fala indica o que há na minha mente. Paz mental produz palavras serenas. Preocupação mental produz palavras severas. Acredite no poder de suas palavras e use-as de forma valiosa."

"Quando colocamos na mala de viagem objetos além do necessário, a cada transbordo experimentamos o transtorno de carregar aquele peso extra. Da mesma forma, ao manter pensamentos inúteis ou negativos na mente, criamos uma carga desnecessária que nos acompanha durante toda jornada diária. Como resultado sentimos cansaço e desconforto. Leveza é prosseguir caminhando com a mente limpa, além de tudo aquilo que consiste em levá-la para baixo, mas mantendo sempre os pés firmes no chão."
A paz de todo dia. Brahma Kumaris

sábado, 24 de janeiro de 2009

"É maravilhoso ter ouvidos e olhos na alma..."


"Quando uma porta de felicidade fecha-se, uma outra se abre; mas muitas vezes, nós olhamos tão demoradamente para a porta fechada que não podemos ver aquela que se abriu diante de nós."
Helen Keller
"É maravilhoso ter ouvidos e olhos na alma. Isto completa a glória de viver."
Helen Keller
Helen Keller - A vida de Helen Adams Keller é a história de uma criança que aos dezoito meses de idade ficou cega e surda e de sua luta árdua e vitoriosa para se integrar na sociedade, tornando-se além de célebre escritora, filósofa e conferencista, uma personagem famosa pelo trabalho incessante que desenvolveu para o bem estar das pessoas portadoras de deficiências.
Informações:
Keller, H. Lutando contra as trevas, RJ, Fundo de Cultura, 1957.

Não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente!

"Já escondi um amor com medo de perdê-lo,
Já perdi um amor por escondê-lo...
Já segurei nas mãos de alguém por estar com medo,
Já tive tanto medo, ao ponto de nem sentir minhas mãos.
Já expulsei pessoas que amava de minha vida,
Já me arrependi por isso...
Já passei noites chorando até pegar no sono,
Já fui dormir tão feliz,
Ao ponto de nem conseguir fechar os olhos...
Já acreditei em amores perfeitos,
Já descobri que eles não existem...
Já amei pessoas que me decepcionaram,
Já decepcionei pessoas que me amaram...
Já passei horas na frente do espelho
Tentando descobrir quem sou,
Já tive tanta certeza de mim,
Ao ponto de querer sumir...
Já menti e me arrependi depois,
Já falei a verdade
E também me arrependi...
Já fingi não dar importância a pessoas que amava,
Para mais tarde chorar quieto em meu canto...

Já sorri chorando lágrimas de tristeza,
Já chorei de tanto rir...
Já acreditei em pessoas que não valiam a pena,
Já deixei de acreditar nas que realmente valiam...
Já tive crises de riso quando não podia...
Já senti muita falta de alguém,
Mas nunca lhe disse...
Já gritei quando deveria calar,
Já calei quando deveria gritar...
Muitas vezes deixei de falar o que penso para agradar uns,
Outras vezes falei o que não pensava para magoar outros...
Já fingi ser o que não sou para agradar uns,
Já fingi ser o que não sou para desagradar outros...
Já contei piadas e mais piadas sem graça,
Apenas para ver um amigo mais feliz...
Já inventei histórias de final feliz
Para dar esperança a quem precisava...
Já sonhei demais,
Ao ponto de confundir com a realidade...
Já tive medo do escuro,
Hoje no escuro "me acho... me agacho... fico ali"...
Já caí inúmeras vezes
Achando que não iria me reerguer,
Já me reergui inúmeras vezes
Achando que não cairia mais...
Já liguei para quem não queria
Apenas para não ligar para quem realmente queria...
Já corri atrás de um carro,
Por ele levar alguém que eu amava embora.
Já chamei pela mamãe no meio da noite
Fugindo de um pesadelo,
Mas ela não apareceu
E foi um pesadelo maior ainda...
Já chamei pessoas próximas de "amigo"
E descobri que não eram;
Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada
E sempre foram e serão especiais para mim...
Não me dêem fórmulas certas,
Porque eu não espero acertar sempre...
Não me mostre o que esperam de mim,
Porque vou seguir meu coração!...
Não me façam ser o que eu não sou,
Não me convidem a ser igual,
Porque sinceramente sou diferente!...
Não sei amar pela metade,
Não sei viver de mentiras,
Não sei voar com os pés no chão...
Sou sempre eu mesma,
Mas com certeza não serei a mesma para sempre."

“Gosto dos venenos mais lentos! Das bebidas mais fortes! Dos cafés mais amargos! E os delirios mais loucos. Você pode ate me empurrar de um penhasco que eu vou dizer: E daí, eu adoro voar!! Não me dêem fórmulas certas, por que eu não espero acertar sempre. Não me mostrem o que esperam de mim, por que vou seguir meu coração. Não me façam ser quem não sou. Não me convidem a ser igual, por que sinceramente sou diferente. Não sei amar pela metade. Não sei viver de mentira. Não sei voar de pés no chão. Sou sempre eu mesma, mas com certeza, não serei a mesma pra sempre".

Clarice Lispector

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

LIBERDADE


Cegos

Cegos

Há dias que não sabemos nada: quem somos nem o que queremos.
Há dias que tudo parece estar errado.
Você do outro lado do rio grita por socorro e aparecem barcos prontos a te ajudar..., mas eles não o vêem. Ninguém te vê.
Sozinho.
Escuro.
Vazio.
Medo.
Medo.
Assim diria o poeta " É solitário andar por entre a gente/ É nunca contentar-se de contente"
Que coisa indigna é essa que nos atrapalha a vida? Insegurança? Covardia?
Honra!? Onde estão os homens amados e honrados?
Onde está a Verdade?
Verdade?
Deus?
Quem é Deus? Eis que te pergunto, dê-me razões, dê-me números.
Fale me de Deus.
É somente Deus que resta e nada mais.
Estou sozinho: eu e eu.
Esse contato próximo comigo me envolve de medo, de um certo pavor... inexplicável.
Medo de mim !
Eis o que sou: um covarde com medo da sombra. Ou será a sombra com medo de um covarde?
Dúvidas. Dúvidas. Dúvidas.
Pontos finais até a última gota de sangue . . .
O que é um ponto final?
O fim? Onde está o começo? O começo termina no fim ou o fim começa no começo?
Perguntas e mais perguntas e não me entendo.
Surrealismo total: viagem ao céu de Dali contemplando as estrelas simbólicas de Meireles, ó grande Cecília - heroína guerreira nessa sútil passagem de um lado para o outro...
Ela bem nos disse que temos um medo, medo de acabar. Mas eu pergunto: no fim ou no começo?
O que precisamos é de Liberté e da alma de Che Guevara, ou quem sabe de algum boêmio que tenha visto a Vida com olhos não pré-ensinados. Sim! Eles - aqueles comportados senhores de gravata e doutores da"vida", da guerra e do mundo - nos ensinam a ver a Vida - da forma mais errônea e ridícula que se possa ousar imaginar.
Miserables! Acabaram com nossos olhos. Estamos cegos, todos cegos.
Ninguém me vê e eu não vejo ninguém.
Estamos sozinhos.
Escuro.
Vazio.
Medo.
Medo.

Paula Cristina

O Lutador


O Lutador

Carlos Drummond de Andrade

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.

Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue
Entretanto, luto.

Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.

Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.

Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
outra sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.

O ciclo do dia
ora se consuma
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

"To be, or not to be"

To be, or not to be (from Hamlet 3/1)
William Shakespeare

To be, or not to be: that is the question:
Whether 'tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them? To die: to sleep;
No more; and by a sleep to say we end
The heart-ache and the thousand natural shocks
That flesh is heir to, 'tis a consummation
Devoutly to be wish'd. To die, to sleep;
To sleep: perchance to dream: ay, there's the rub;
For in that sleep of death what dreams may come
When we have shuffled off this mortal coil,
Must give us pause: there's the respect
That makes calamity of so long life;
For who would bear the whips and scorns of time,
The oppressor's wrong, the proud man's contumely,
The pangs of despised love, the law's delay,
The insolence of office and the spurns
That patient merit of the unworthy takes,
When he himself might his quietus make
With a bare bodkin? who would fardels bear,
To grunt and sweat under a weary life,
But that the dread of something after death,
The undiscover'd country from whose bourn
No traveller returns, puzzles the will
And makes us rather bear those ills we have
Than fly to others that we know not of?
Thus conscience does make cowards of us all;
And thus the native hue of resolution
Is sicklied o'er with the pale cast of thought,
And enterprises of great pith and moment
With this regard their currents turn awry,
And lose the name of action. - Soft you now!
The fair Ophelia! Nymph, in thy orisons
Be all my sins remember'd





Mude
Edson Marques

Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais
importante que a velocidade.

Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.

Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua.

Depois, mude de caminho, ande por outras ruas,
calmamente, observando com atenção os lugares por onde você passa.
Tome outros ônibus.

Mude por uns tempos o estilo das roupas.

Dê os seus sapatos velhos.

Procure andar descalço alguns dias.

Tire uma tarde inteira para passear livremente
na praia, ou no parque, e ouvir o canto dos
passarinhos.

Veja o mundo de outras perspectivas.

Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda.

Durma no outro lado da cama...

Depois, procure dormir em outras camas.

Assista a outros programas de tv, compre outros jornais...

Leia outros livros, viva outros romances.
Ame a novidade.

Durma mais tarde.

Durma mais cedo.

Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.

Corrija a postura.

Coma um pouco menos,

Escolha comidas diferentes,

Novos temperos, novas cores,

Novas delícias.

Tente o novo todo dia.

O novo lado, o novo método, o novo sabor,
o novo jeito, o novo prazer, o novo amor,
a nova vida.

Tente.

Busque novos amigos tente novos amores.

Faça novas relações.

Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida compre pão em outra padaria.

Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.

Escolha outro mercado...

Outra marca de sabonete, outro creme dental...

Tome banho em novos horários.

Use canetas de outras cores.

Vá passear em outros lugares.

Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes.

Troque de bolsa, de carteira, de malas,
troque de carro, compre novos óculos, escreva outras poesias.

Jogue os velhos relógios, despertadores.

Abra conta em outro banco.

Vá a outros cinemas, outros cabelereiros,

outros teatros, visite novos museus.

Mude.

Lembre-se de que a vida é uma só.

E pense seriamente em arrumar um
Outro emprego, uma nova ocupação, um trabalho mais light,
mais prazeroso, mais digno,
mais humano.

Se você não encontrar razões para ser livre,
invente-as.

Seja criativo.

E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa,
longa, se possível sem destino.

Experimente coisas novas.

Troque novamente.

Mude, de novo.

Experimente outra vez.

Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas,
mas não é isso o que importa.

O mais importante é a mudança, o movimento,
o dinamismo, a energia.

Só o que está morto não muda!

Repito por pura alegria de viver:

A salvação é pelo risco,
sem o qual a vida não vale a pena!!!

Liberté

Poème “Liberté” – P. Éluard
(Poésies et Vérité 1942)


Sur mes cahiers d'écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable de neige
J'écris ton nom

Sur les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J'écris ton nom

Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J'écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l'écho de mon enfance
J'écris ton nom

Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J'écris ton nom

Sur tous mes chiffons d'azur
Sur l'étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J'écris ton nom

Sur les champs sur l'horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J'écris ton nom

Sur chaque bouffée d'aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J'écris ton nom

Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l'orage
Sur la pluie épaisse et fade
J'écris ton nom


Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J'écris ton nom

Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent
J'écris ton nom

Sur la lampe qui s'allume
Sur la lampe qui s'éteint
Sur mes raisons réunies
J'écris ton nom

Sur le fruit coupé en deux
Du miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J'écris ton nom

Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J'écris ton nom

Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J'écris ton nom

Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J'écris ton nom

Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attendries
Bien au-dessus du silence
J'écris ton nom

Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J'écris ton nom

Sur l'absence sans désir
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J'écris ton nom

Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l'espoir sans souvenir
J'écris ton nom

Et par le pouvoir d'un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté.

Morte

" A proximidade da morte transfigura o olhar. Ela faz com que vivamos cada instante como se fosse o último. Aquilo que é prosaico, pequeno, neutralizado pelo cotidiano ganha brilho e grandeza de coisa rara e preciosa. (...)"

Clenir Bellezi de Oliveira. "Modero, lírico, genial". In: Revista Discutindo Literatura - Ano 2 nº 7 Escala Educacional. (Artigo sobre o poeta Manuel Bandeira)

Sugestão: Filme "Antes de Partir"

Deepak Chopra

" - O mundo? Como você imagina que as pessoas vivem, aquelas que você viu no vilarejo? Elas se peocupam com o prazer e a dor, buscando o primeiro e desesperadamente evitando a segunda. Estando vivas, elas desperdiçam a vida preocupando-se com a morte. A riqueza e a pobreza as obcecam e alimentam seus mais profundos receios."
p. 25

" O medo nasce com eles, e eles não conseguem desfrutar o mais insignificante prazer sem ter a certeza de que ele irá desaparecer."
p. 36

In: _______. O caminho do mago. Tradução de Claudia Gerpe Duarte

Humanas actiones

"Sedule curavi humanas actiones non ridere non lugere neque detestare sed intellegere"
Spinoza

"Tenho-me esforçado por não rir das ações humanas, por não deplorá-las nem odiá-las, mas por entendê-las."

Eu sei, mas não devia

"Eu sei, mas não devia"
Marina Colasanti


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

(1972)


Marina Colasanti nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com Eu sei mas não devia e também por Rota de Colisão. Dentre outros escreveu E por falar em Amor; Contos de Amor Rasgados; Aqui entre nós, Intimidade Pública, Eu Sozinha, Zooilógico, A Morada do Ser, A nova Mulher, Mulher daqui pra Frente e O leopardo é um animal delicado. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant'Anna.


O texto acima foi extraído do livro "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Razão de ser

Razão de ser

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
e as estrelas lá no céu
lembram letras no papel,
quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

Paulo Leminski
In: Melhores poemas de Paulo Leminski

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Mario Quintana...

PROJETO DE PREFÁCIO

Sábias agudezas... refinamentos...
- não!
Nada disso encontrarás aqui.
Um poema não é para te distraíres
como com essas imagens mutantes de caleidoscópios.
Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe
Um poema não é também quando paras no fim,
porque um verdadeiro poema continua sempre...
Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte
não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras.

Mario Quintana

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009


Tu Tens um Medo

Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo...
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...
... E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.

Cecília Meireles

Noções

Noções

Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.

Virei-me sobre a minha própria experiência, e contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Ó meu Deus, isto é minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera...

Cecília Meireles

Madrugada no campo


Madrugada no campo

Cecília Meireles

Com que doçura a brisa penteia
a verde seda fina do arrozal -
Nem cílios, nem pluma, nem lume de lânguida
lua, nem o suspiro do cristal.

Com que doçura a transparente aurora
tece na fina seda do arrozal
aéreos desenhos de orvalhos! Nem lágrima,
nem pérola, nem íris de cristal...

Com que doçura as borboletas brancas
prendem os fios verdes do arrozal
com seus leves laços! Nem dedos, nem pétalas,
nem frio aroma de anis em cristal.

Com que doçura o pássaro imprevisto
de longe tomba no verde arrozal!
- Caído céu, flor azul, estrela última:
súbito sussurro e eco de cristal

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Paciência

Paciência
Lenine
Composição: Lenine e Dudu Falcão

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não pára...
Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara...
Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência...
O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência...
Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão raraTão rara...
Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Mesmo quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára
A vida não pára não...
Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...
Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára
A vida não pára não...
A vida não pára!...
A vida é tão rara!...

Coisa curiosa essa que muda nossa vida

Quanto tempo o tempo tem?
O tempo é algo indefinível
Pode ser muito
Pode ser pouco
O que fazemos nós com o nosso tempo?
O que vale um minuto?
O que significa "ter tempo"? Tempo?
Tempo para quê?

Coisa curiosa essa que muda nossa vida
Paula Cristina






Renúncia - Manuel Bandeira

Renúncia

Chora de manso e no íntimo... procura
Tentar curtir sem queixa o mal que te crucia:
O mundo é sem piedade e até riria
Da tua inconsolável amargura.

Só a dor enobrece e é grande e é pura.
Aprende a amá-la que a amarás um dia.
Então ela será tua alegria,
E será ela só tua ventura...

A vida é vã como a sombra que passa
Sofre sereno e de alma sombranceira
Sem um grito sequer tua desgraça.

Encerra em ti tua tristeza inteira
E pede humildemente a Deus que a faça
Tua doce e constante companheira...

Manuel Bandeira

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Versos Simples

Versos Simples
Chimarruts
Composição: Sander Fróis


Sabe, já faz tempo,
Que eu queria te falar
Das coisas que trago no peito
Saudade,
Já não sei se é a palavra certa para usar
Ainda lembro do seu jeito
Não te trago ouro,
Porque ele não entra no céu
E nenhuma riqueza deste mundo
Não te trago flores,
Porque elas secam e caem ao chão
Te trago os meus versos simples,
Mas que fiz de coração.
Sabe, já faz tempo,
Que eu queria te falar
Das coisas que trago no peito
Saudade,
Já não sei se é a palavra certa para usar
Ainda lembro do seu jeito
Não te trago ouro,
Porque ele não entra no céu
E nenhuma riqueza deste mundo
Não te trago flores,
Porque elas secam e caem ao chão
Te trago os meus versos simples,
Mas que fiz de coração.

Eterna Clarice...

"Não é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso, entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus.
Um sopro de vida

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Mais uma Vez

Mais Uma Vez
Legião Urbana
Composição: Renato Russo


Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
Mais uma vez eu sei
Escuridão já vi pior de endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem.
Tem gente que está do mesmo lado que você
Mas deveria estar do lado de lá
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Tem gente enganando a gente
Veja a nossa vida como está
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança!
Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
Mais uma vez eu sei
Escuridão já vi pior de endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem.
Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena
Acreditar no sonho que se tem
Ou que seus planos nunca vão dar certo
Ou que você nunca vai ser alguém
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança!
Quem acredita sempre alcança!
Quem acredita sempre alcança!
Quem acredita sempre alcança!
Quem acredita sempre alcança!
Quem acredita sempre alcança!
Quem acredita sempre alcança!
Quem acredita sempre alcança!

Look to tomorrow


segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

"morrer de vez em quando / é a única coisa que me acalma"


já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma

Paulo Leminski

domingo, 4 de janeiro de 2009

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Garfield - Todos os problemas têm solução !!!


Hoje descobri o amor

Hoje, justamente, hoje, nem ontem nem amanhã, mas hoje. Hoje eu descobri o amor. Ele existe sim! O amor real sem interesses, o amor amizade, o amor Divino. Deo Gratias!!!
O lausperene do meu Ser é a imensa expressão do vir-a-ser melhor, de acreditar em Deus.
Deus existe! O amor existe. A bondade não está afundada em barcos de madeira perdidos em alto mar. Não. A bondade está aqui, aqui e agora, longe de toda essa profusão de brilhantes e luminosas tentações. A bondade não tem cor. É da cor de Deus, da cor do Amor, e Deus não tem cor, nem é luminoso. Deus não precisa chamar atenção.
Deus é tão pequeno, menor do que um grão de areia, e só os pequenos o verão..., e Deus faz construções belíssimas, dignas de serem chamadas perfeitas.
Se Deus é pequeno e constrói tudo, se nos mostra o amor, o que fazemos nós seres que se acham os melhores e maiores do Universo? Maiores? Nós? Acredito que a pequenez está na vaidade dos homens, tão grandes e tão pequenos...

Paula Cristina