
sábado, 30 de maio de 2009
sexta-feira, 29 de maio de 2009
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Nada acontece
Eu vejo a luz acesa
a noite caindo
o céu murmurando
e nada
nada acontece
Eu vejo o vai-e-vem das pessoas
a televisão
a solidão das crianças
e nada
nada acontece
Eu vejo as notícias
os políticos
a descoberta do roubo
e nada
nada acontece
Eu vejo os grilhões
o ferro e a brasa
a dor maior do mundo
e nada
nada acontece
Eu vejo a internet
o orkut e seus recados
o desespero humano
e nada
nada acontece
Eu vejo as palavras
os discursos
a fraca tentativa
e nada
nada acontece
Eu vejo os homens
as cadeiras quebradas
a estúpida fuga
e nada
nada acontece
Eu vejo as mulheres
os vermelhos decotes
a grande insegurança
e nada
nada acontece
Eu vejo as meninas
saias e batom
a crua realidade
e nada
nada acontece
Eu vejo o horizonte
o sol e sua certeza
a esperança do amanhã
e nada
nada acontece
Paula Cristina
"a minha fome é do tamanho da minha dor"
Construirei para ti uma casa terrestre,
feita de pão e luz e música,
onde caibas apenas tu
e não haja espaço para os intrusos
João Melo
terça-feira, 26 de maio de 2009
" Sem Título"
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Nação Crioula
Nação Crioula (romance epistolar) é um dos belos romances de Agualusa. Conta a história de um amor secreto: Carlos Fradique Mendes e Ana Olimpia.
A leitura desta obra faz-se essencial na questão da sociedade escravocrata. Traz aos olhos do leitor o navio negreiro, a venda e compra de escravos e o status de possuí-los e ainda mais, a identidade de um povo, tão-nosso, que ficou esquecida...
A escravidão foi "apagada" do nosso passado...
A identidade foi perdida.
------------------------------
O romance assim começa:
Carta a Madame de Jouarre
Luanda, Maio de 1868
Minha querida madrinha,
Desembarquei ontem em Luanda ás costas de dois marinheiros cabindanos. Atirado para a praia, molhado e humilhado, logo ali me assaltou o sentimento inquietante de que havia deixado para trás o próprio mundo. Respirei o ar quente e húmido, cheirando a frutas e a cana-de-acúçar, e pouco a pouco comecei a perceber um outro odor, mais subtil, melancólico, como o de um corpo em decomposição. É a este cheiro, creio, que todos os viajantes se referem quando falam de África.
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Trechos da obra
" (...) 'A vida de um escravo', disse me, 'é uma casa com muitas janelas e nenhuma porta. A vida de um homem livre é uma casa com muitas portas e nenhuma janela'.(...)"
(p.95)
" (...) Na terra dos hausa, disse-lhe a minha amiga, já ninguém se lembra de si. O velho encolheu os ombros: 'Não vou à procura dos outros', respondeu, 'vou à procura de mim' ".
(p.96)
terça-feira, 19 de maio de 2009
O Sagrado e O Profano
Nação Crioula
José Eduardo Agualusa
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Poema "Decorei..."
Vi o mundo
Olhei seu caminho
Enxerguei sua vida
Compreendi sua atitude.
Amei sua inteligência
Brinquei com sua fala
Peguei sua mão
Caminhei ao seu lado.
Inaugurei sua manhã
Abri o seu dia
Fui seu amigo
Espantei sua tristeza.
Li seu poema
Populei seu ambiente
Preenchi seu espaço
Acelerei sua noite.
Aceitei seu carinho
Abracei sua meiguice
Chorei sua lágrima
Afaguei seu sentimento.
Admirei sua face
Analisei seu corpo
Vislumbrei sua beleza
Beijei sua boca.
Acertei seu peito
Roubei seu coração
Decorei sua alma
Entreguei... a minha.
Meier
sábado, 16 de maio de 2009
quinta-feira, 14 de maio de 2009
MULHER
--------------------------------------------------------------------------------------------debaixo do braço para ser protegida
e do lado do coração para ser amada."
quarta-feira, 13 de maio de 2009
A PALAVRA FORTE

Minhas palavras não são tão doces
Eu tenho uma conversa esquisita
Meu vinho não é tão suave
Eu tenho um gosto sutil
Minha maçã não é tão vermelha
Eu tenho uma cor discreta
Eu falo baixo
Coisas pequenas
Pra pouca gente
Mas procuro sempre...
Minhas palavras não são tão certas
Eu tenho uma certeza esquisita
Meus sentimentos não são comuns
Eu sinto coisas que mudam
Meu corpo não é tão real
Eu ando, eu ando,
Eu ando por outros mundos
Meus desejos não são simples
Eu sonho, eu sonho,
Eu sonho com o impossível
Eu falo baixo
Coisas pequenas
Pra pouca gente
Mas procuro sempre
A palavra forte!
Paula Toller/ George Israel
Cantigas de Roda
A Barata diz que tem sete saias de filó
É mentira da barata, ela tem é uma só
Ah ra ra, iá ro ró, ela tem é uma só !
A Barata diz que tem um sapato de veludo
É mentira da barata, o pé dela é peludo
Ah ra ra, Iu ru ru, o pé dela é peludo !
A Barata diz que tem uma cama de marfim
É mentira da barata, ela tem é de capim
Ah ra ra, rim rim rim, ela tem é de capim
A Barata diz que tem um anel de formatura
É mentira da barata, ela tem é casca dura
Ah ra ra , iu ru ru, ela tem é casca dura
A Barata diz que tem o cabelo cacheado
É mentira da barata, ela tem coco raspado
Ah ra ra, ia ro ró, ela tem coco raspado
FONTE: http://www.alzirazulmira.com/cantigas.htm
terça-feira, 12 de maio de 2009
sábado, 9 de maio de 2009
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Brejeirinha e o "não-dito"

quinta-feira, 7 de maio de 2009
quarta-feira, 6 de maio de 2009
www.culturapara.art.br
William Carlos Williams
O alfabeto das
árvores
vai desmaiando na
canção das folhas
as hastes cortadas
das finas
letras que escreviam
inverno
e frio
foram iluminadas
com
pontas de verde
pela chuva e o sol -
As regras simples
e estritas dos ramos
retos
vão sendo alteradas
por ses de cor
pinçados, por cláusulas
devotas
os sorrisos de amor -
. . . . . . .
até as frases
desnudas
se moverem como braços
e pernas de mulher sob o tecido
e em sigilo o louvor
entoarem do desejo
e do império do amor
no estio -
No estio a canção
canta-se por si
acima das palavras surdas -
(tradução: José Paulo Paes)
Poeta fundamental numa tradição de gigantes, a poesia norte-americana, em que cada autor parece estar observando o mundo pela primeira vez e inventando a linguagem poética (...). Dentro desta tradição, William Carlos Williams se destaca por sua capacidade de transformar todo assunto ou objeto em matéria poética. Daí sua atenção toda peculiar ao fugaz e ao diminuto, ao aparentemente desimportante, enfim.
A poesia surge do mais inesperado solo... "Ele continua a arrebentar rochas e rachar poemas". (T.S. Eliot numa carta de fevereiro de 1959, aludindo a um de seu poemas mais conhecidos, "Uma espécie de canção".
http://www.culturapara.art.br/opoema/williamcarloswilliams/williamcarloswilliams.htm
sexta-feira, 1 de maio de 2009
As sete maravilhas do mundo

E ela estava com vergonha de dizê-las
Um grupo de estudantes estudava as sete maravilhas do mundo. No final da aula, foi pedido aos estudantes que fizessem uma lista do que consideravam as sete maravilhas. Embora houvesse algum desacordo, começaram os votos:
1) O Taj Mahal
2) A Muralha da China
3) O Canal do Panamá
4) As pirâmides do Egito
5) O Grand Canyon
6) O Empire State Building
7) A Basília de São Pedro
Ao recolher os votos, o professor notou uma estudante muito quieta. A menina não tinha virado sua folha ainda. O professor então perguntou a ela se tinha problemas com sua lista. A menina quieta respondeu:
- Sim, um pouco. Eu não consigo fazer a lista, porque são muitos.
O professor disse:
- Bem, diga-nos o que você já tem e talvez nós possamos ajudá-la.
A menina hesitou, então leu:
- Eu penso que as sete maravilhas do mundo sejam:
1 - Ver
2 - Ouvir
3 - Tocar
4 - Provar
5 - Sentir
6 - Rir
7 - E amar ...
A sala então ficou completamente em silêncio...
(autor desconhecido)
quinta-feira, 30 de abril de 2009
sexta-feira, 24 de abril de 2009
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Poema - (parodiando alguém)
Ele não sabe ser feliz.
Ele julga a cada segundo.
E a cada instante e a cada momento e a cada lugar.
Em pleno momento pleno,
Análise,
Raciocínio,
Julgamentos;
E Felicidade?
Em qual momento?
Nada.
Pois
Tudo
Acaba.
Em pleno momento pleno.
Chance única
Último suspiro
Sopro eterno
Respire Felicidade
Deixe os cálculos para amanhã
Eterna respiração
Paula Cristina 22/04
segunda-feira, 20 de abril de 2009
quarta-feira, 15 de abril de 2009
terça-feira, 14 de abril de 2009
quarta-feira, 8 de abril de 2009
diFErêNÇaS - Diálogo Primeiro
- A diferença, em parte, é benéfica, mas causa irritabilidade quando espera-se do outro um comportamento que, de certa forma, seria o seu.
Irritabilidade proveniente de quê?
- Temos um modelo-padrão para tudo em nossa vida. Quando o que se vê difere do padrão, ficamos fragilizados. (medo, de novo o medo?)
- O que é diferente nos instiga e nos afasta ao mesmo tempo. Curioso esse jeito nosso, não? - Queremos e não queremos. Alegria e tristeza. E blá blá blá.
- Lei da atração e repulsão: vai e volta sem fim. Será mesmo sem fim? Pergunto-me.
Quando a diferença passará a fazer parte das aventuras de um dia a dia normal?
- Quando não mais se esperar o programado, o "padrão".
Egoísmo?
- Sim, egoísmo. Sem dúvida, o causador das superioridades e inferioridades...
Ah! Não entendi...
- Deixa pra lá.
Eu x Eu
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Falam Pocilgas de Operários
A exerga é pobre e a roupa é leve...
Quarto sem luz, mesa sem trigo...
Quem é que bate no meu postigo?
- A Neve!
A usura rouba a luz e o ar
E o negro pão que a gente come...
Inverno vil... Parou o tear...
Quem vez sentar-se no meu lar?
- A Fome!
Lume apagado e o berço em pranto
Na terra húmida, Senhor!
A mãe sem leite... o pai a um canto...
Quem vem além,torva de espanto?
- A Dor!
Álcool! Veneno que conforta,
Monstro satânico e sublime!...
Beber! beber.. e a mágoa é morta!...
Quem é que espreita à nossa porta?
- O Crime!
Doze anos já, e seminua!
A mãe, que é dela?... O pai no ofício...
Corpo em botão d'aurora e lua!...
Quem canta além naquela rua?
- O Vício!
A fome e o frio, a dor e a usura,
O vício e o crime... ignóbil sorte!
Ó vida negra! Ó vida dura!...
Deus! quem consola a Desventura?
- A Morte!
Guerra Junqueiro
sábado, 4 de abril de 2009
Definição de "Mulher"
A mulher é o enigma da criação..."
Denis Silva
sexta-feira, 3 de abril de 2009
Constância
Não queira que eu assuma o teu jeito de viver
Eu vivo
Apenas
.Vivo.
Presente constante
Alerta infinito da passagem do tempo
Não sou um sino
Quanto ao futuro
Deixo a pergunta
Paula Cristina
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Eu sei quem é você?
Um homem bastante idoso procurou uma clínica para um
curativo em sua mão ferida, dizendo-se muito apressado
porque estava atrasado para um compromisso.
Enquanto o tratava, o jovem médico quis saber o motivo
da sua pressa e ele disse que precisava ir a um Asilo
de Velhos tomar o café da manhã com sua mulher que
estava internada lá há bastante tempo.
Sua mulher sofria do "Mal de Alzheimer" em estágio
bastante avançado.
Enquanto terminava o curativo, o médico perguntou-lhe
se ela não ficaria assustada pelo fato dele estar
atrasado.
- "Não, disse ele. Ela já não sabe quem eu sou. Há
quase cinco anos ela nem me reconhece..."
Intrigado o médico lhe pergunta:
- "Mas se ela já nem sabe quem o senhor é, porque essa
necessidade de estar com ela todas as manhãs?"
O velho sorriu, deu uma palmadinha na mão do médico e
disse:
- "É verdade... ela não sabe quem eu sou, mas eu sei
muito bem QUEM ELA É".
Enquanto o velhinho saía apressado, o jovem médico
sorria emocionado e pensava: "Esta é a qualidade de
Amor que eu quero para a minha vida"
O Amor não se reduz ao físico, ao romântico.
O Amor verdadeiro é a aceitação.
DE TUDO O QUE O OUTRO É.
DE TUDO O QUE O OUTRO FOI.
DO QUE SERÁ.
DO QUE JÁ NÃO É.
(Desconheço a autoria.)
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Espelho
terça-feira, 31 de março de 2009
Amor a sim mesmo!!!
Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio.
(...)"
Artur da Távola
Amor a sim mesmo
O mundo é grande...
O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.
(Carlos Drummond de Andrade in Amar se Aprende Amando)
quarta-feira, 25 de março de 2009
Meu mistério
A hora da estrela. Clarice Lispector
segunda-feira, 23 de março de 2009
Sem Título
nós éramos tudo
e
ainda sobrava
éramos muito
éramos pouco
nós éramos pequenos
e
loucos
Paula Cristina
sexta-feira, 20 de março de 2009
quarta-feira, 18 de março de 2009
quinta-feira, 12 de março de 2009
quarta-feira, 11 de março de 2009
Apesar de.
Clarice Lispector
Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres
segunda-feira, 9 de março de 2009
Marcelino Freire
Marcelino Freire
Sujar ele se suja. Mas não se preocupe. Há um cinturão de fraldas. Um nó gordo que segura. Para não escorrer na poltrona. Melecar a parede da sala. Um dia até no teto ele deixou uma manchinha pendurada. Feito uma criança que voa. Cuidado para ele não comer bosta à toa. Coitado! O que é a idade? Ave! Você precisava ver como ele era. Eis a fotografia. Quem diria? Era? Ou? Não? Era? Outra? Pessoa? Minha? Filha?
Sopa de ervilhas ele adora. É preciso saber cozinhar. Tudo o que ele for engolir aconselho triturar. Mole. Mole. Coisa dura nem pensar. Nada de dentadura. Digo assim. Na hora de almoçar. Papar. Periga ele se engasgar como numa certa vez. Os dentes foram sugados. E a outra menina teve de puxar. Lá de dentro. Ele já quase morrendo. Roxo. Eis aqui. O copo é este. Desde muito tempo. Ele só bebe neste copinho. Que bonitinho! Da! Cor! Que! Ele! Gosta! Minha. Filha. Cinzento!
O banheiro é este. A banheira é esta. Você vai ter de acompanhar. Pode lavar a cara e as costas. Esfregar. Esfregar. Esfregar. Nem pense em economizar. Vá fundo. Só não deixe o esqueleto pular muito. O sabonete naufragar. Cair. O xampu entrar nos olhos. Porque ele começa a gritar. A espernear. A mijar feito um afogado. Quem ouve pensa. Estão matando o que já está morto. Salvem o coitado! Aquele alvoroço. Como se a gente tivesse coragem de esganá-lo. Que pecado! Minha. Filha. O? Que? Passa? Pelo? Coração? Deste? Povo?
Ah! Para dormir não dá trabalho. É só contar uma história. Ajudar o diabo a rezar. Se quiser pode até cantar uma cantiga de ninar. Antiga. Que ele aprova. Vou ser sincera. O problema é quando ele acorda. Por causa de um pesadelo. Uma saudade. Algum desejo que ficou. Sei lá. Adormecido. Ele perde o juízo. Baba. Espuma. Vai querer você bem perto. Pertinho. Ele tira a roupa. Feito um debilóide. O pobrezinho. Mas veja. Não é nada muito sério. Ele só se sente sozinho. Deite-se com ele. Minha. Filha. Não há perigo. O. Velho. Só. Precisa. De. Um. Pouco. De. Carinho.
Severinos . . .
Morte e Vida Severina - João Cabral de Melo Neto
O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI
— O meu nome é Severino,
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mais isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem falo
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
alguns roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.
Ele disse o seguinte:
Disciplina é liberdade
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem
sexta-feira, 6 de março de 2009
quinta-feira, 5 de março de 2009
Hunter - Dido
With one small step up on the stair, I know your look when I get there
If you were a king up there on your throne,
would you be wise enough to let me go?
For this queen you think you own
wants to be a hunter again, wants to see the world alone again
To take a chance on life again -- so let me go
The unread book and painful look, the TV's on, the sound is down
One long pause, then you begin, oh look what the cat's broughtin
If you were a king up there on your throne,
would you be wise enough to let me go?
For this queen you think you own
wants to be a hunter again, wants to see the world alone again
To take a chance on life again, so let me go, let me leave
For the crown you've placed up on my head feels too heavy now
And I don't know what to say to you but I'll smile anyhow
And all the time I'm thinking, thinking
I want to be a hunter again, want to see the world alone again
To take a chance on life again, so let me go
I want to be a hunter again, want to see the world alone again
To take a chance on life again, so let me go, let me live, let me go
quarta-feira, 4 de março de 2009
Somos o que lemos
(Alberto Manguel, Uma história da leitura)
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Quando...
Quando tudo era ausência esperei
Quando tive frio tremi
Quando tive coragem liguei
Quando chegou carta abri
Quando ouvi Prince dancei
Quando o olho brilhou, entendi
Quando criei asas, voei
(Trecho "Á primeira vista", música Daniela Mercury)
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Justiças
Fevereiro 25, 2009 by José Saramago
No dia de 22 de Julho de 2005, um cidadão brasileiro, Jean Charles de Menezes, de profissão electricista, foi assassinado em Londres, numa estação de metro, por agentes da polícia metropolitana que o confundiram, diz-se, com um terrorista. Entrou numa carruagem, sentou-se tranquilamente, parece que chegou mesmo a abrir o jornal gratuito que havia recolhido na estação, quando os polícias irromperam e o arrastaram para o cais. Não o detiveram, não o prenderam, derrubaram-no violentamente e dispararam-lhe dez balas, sete das quais na cabeça. Desde o primeiro dia, a Scotland Yard não fez outra coisa que criar obstáculos à investigação. Não houve julgamento. A procuradoria impediu que os polícias fossem incriminados e o juiz proibiu o jurado de pronunciar uma sentença condenatória. Já sabem, se algum dia lhes aparecer por aí uma peruca branca, dessas que aparecem nos filmes, digam ao portador o que as pessoas honestas pensam destas justiças.
Publicado em O Caderno de Saramago
Fonte: http://caderno.josesaramago.org/
Dizemos
By José Saramago
Dizemos aos confusos, Conhece-te a ti mesmo, como se conhecer-se a si mesmo não fosse a quinta e mais difícil operação das aritméticas humanas, dizemos aos abúlicos, Querer é poder, como se as realidades bestiais do mundo não se divertissem a inverter todos os dias a posição relativa dos verbos, dizemos aos indecisos, Começar pelo princípio, como se esse princípio fosse a ponta sempre visível de um fio mal enrolado que bastasse puxar e ir puxando até chegarmos à outra ponta, a do fim, e como se, entre a primeira e a segunda, tivéssemos tido nas mãos uma linha lisa e contínua em que não havia sido preciso desfazer nós nem desenredar emanharados, coisa impossível de acontecer na vida dos novelos, e, se uma outra frase de efeito é permitida, nos novelos da vida.
Segue o Seco
Marisa Monte
A boiada seca
Na enxurrada seca
A trovoada seca
Na enxada seca
Segue o seco sem sacar que o caminho é seco
Sem sacar que o espinho é seco
Sem sacar que seco é o Ser Sol
Sem sacar que algum espinho seco secará
E a água que sacar será um tiro seco
E secará o seu destino secará
Ô chuva, vem me dizer
Se posso ir lá em cima prá derramar você
Ô chuva, preste atenção
Se o povo lá de cima vive na solidão
Se acabar não acostumando
Se acabar parado calado
Se acabar baixinho chorando
Se acabar meio abandonado
Pode ser lágrimas de São Pedro
Ou talvez um grande amor chorando
Pode ser o desabotoado céu
Pode ser coco derramando
sábado, 21 de fevereiro de 2009
Auto da Lusitânia - Gil Vicente
("Todo o Mundo" era um rico mercador, e "Ninguém", um homem pobre. Belzebu e Dinato tecem comentários espirituosos, fazem trocadilhos, procurando evidenciar temas ligados à verdade, à cobiça, à vaidade, à virtude e à honra dos homens.)
Entra Todo o Mundo, rico mercador, e faz que anda buscando alguma cousa que perdeu; e logo após, um homem, vestido como pobre. Este se chama Ninguém e diz:
Ninguém: Que andas tu aí buscando?
Todo o Mundo: Mil cousas ando a buscar:
delas não posso achar,
porém ando porfiando
por quão bom é porfiar.
Ninguém: Como hás nome, cavaleiro?
Todo o Mundo: Eu hei nome Todo o Mundo
e meu tempo todo inteiro
sempre é buscar dinheiro
e sempre nisto me fundo.
Ninguém: Eu hei nome Ninguém,
e busco a consciência.
Belzebu: Esta é boa experiência:
Dinato, escreve isto bem.
Dinato: Que escreverei, companheiro?
Belzebu: Que Ninguém busca consciência.
e Todo o Mundo dinheiro.
Ninguém: E agora que buscas lá?
Todo o Mundo: Busco honra muito grande.
Ninguém: E eu virtude, que Deus mande
que tope com ela já.
Belzebu: Outra adição nos acude:
escreve logo aí, a fundo,
que busca honra Todo o Mundo
e Ninguém busca virtude.
Ninguém: Buscas outro mor bem qu'esse?
Todo o Mundo: Busco mais quem me louvasse
tudo quanto eu fizesse.
Ninguém: E eu quem me repreendesse
em cada cousa que errasse.
Belzebu: Escreve mais.
Dinato: Que tens sabido?
Belzebu: Que quer em extremo grado
Todo o Mundo ser louvado,
e Ninguém ser repreendido.
Ninguém: Buscas mais, amigo meu?
Todo o Mundo: Busco a vida a quem ma dê.
Ninguém: A vida não sei que é,
a morte conheço eu.
Belzebu: Escreve lá outra sorte.
Dinato: Que sorte?
Belzebu: Muito garrida:
Todo o Mundo busca a vida
e Ninguém conhece a morte.
Todo o Mundo: E mais queria o paraíso,
sem mo Ninguém estorvar.
Ninguém: E eu ponho-me a pagar
quanto devo para isso.
Belzebu: Escreve com muito aviso.
Dinato: Que escreverei?
Belzebu: Escreve
que Todo o Mundo quer paraíso
e Ninguém paga o que deve.
Todo o Mundo: Folgo muito d'enganar,
e mentir nasceu comigo.
Ninguém: Eu sempre verdade digo
sem nunca me desviar.
Belzebu: Ora escreve lá, compadre,
não sejas tu preguiçoso.
Dinato: Quê?
Belzebu: Que Todo o Mundo é mentiroso,
E Ninguém diz a verdade.
Ninguém: Que mais buscas?
Todo o Mundo: Lisonjear.
Ninguém: Eu sou todo desengano.
Belzebu: Escreve, ande lá, mano.
Dinato: Que me mandas assentar?
Belzebu: Põe aí mui declarado,
não te fique no tinteiro:
Todo o Mundo é lisonjeiro,
e Ninguém desenganado.
FONTE: http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/a/auto_da_lusitania
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Céu de Santo Amaro

Olho para o céu
Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós
A força desse amor
Nos invadiu...
Com ela veio a paz, toda beleza de sentir
Que para sempre uma estrela vai dizer
Simplesmente amo você...
Meu amor..
Vou lhe dizer
Quero você
Com a alegria de um pássaro
Em busca de outro verão
Na noite do sertão
Meu coração só quer bater por ti
Eu me coloco em tuas mãos
Para sentir todo o carinho que sonhei
Nós somos rainha e rei
Na noite do sertão
Meu coração só quer bater por ti
Eu me coloco em tuas mãos
Para sentir todo o carinho que sonhei
Nós somos rainha e rei
Olho para o céu
Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós
A força desse amor nos invadiu...
Então...
Veio a certeza de amar você...
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Garotos

Leoni
Composição: Leoni
Seus olhos e seus olhares
Milhares de tentações
Meninas são tão mulheres
Seus truques e confusões
Se espalham pelos pêlos
Boca e cabelo
Peitos e poses e apelos
Me agarram pelas pernas
Certas mulheres como você
Me levam sempre onde querem
Garotos não resistem
Aos seus mistérios
Garotos nunca dizem não
Garotos como eu
Sempre tão espertos
Perto de uma mulher
São só garotos
Seus dentes e seus sorrisos
Mastigam meu corpo e juízo
Devoram os meus sentidos
Eu já não me importo comigo
Então são mãos e braços
Beijos e abraços
Pele, barriga e seus laços
São armadilhas e eu
não sei o que faço
Aqui de palhaço
Seguindo seus passos
Garotos não resistem
Aos seus mistérios
Garotos nunca dizem não
Garotos como eu sempre tão espertos
Perto de uma mulher
São só garotos....
São só garotos....
Se espalham pelos pêlos
Boca e cabelo
Peitos e poses e apelos
Me agarram pelas pernas
Certas mulheres como você
Me levam sempre onde querem
Garotos não resistem
Aos seus mistérios
Garotos nunca dizem não
Garotos como eu
Sempre tão espertos
Perto de uma mulher
Garotos não resistem
Aos seus mistérios
Garotos nunca dizem não
Garotos como eu
Sempre tão espertos
Perto de uma mulher
São só garotos...
Perto de uma mulher
São só garotos...
Perto de uma mulher
São só ... garotos...
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Consequente
Alfredo Rossetti
não sei de onde eu vim
e para onde vou me inquieta
vivo entre a lógica e a loucura
daí, poeta
domingo, 15 de fevereiro de 2009
O que Possuímos
É interessante anotar como desejamos, no mundo, tantas coisas, que nos parecem imprescindíveis.
Quantas vezes, em meio às tarefas que nos cabem, na oficina de trabalho, não desejamos um emprego melhor?
Pois é. Gostaríamos de um melhor ambiente de trabalho, um chefe menos rigoroso, uma carga horária menor, um salário maior.
No entanto, centenas de pessoas anseiam somente por ter um emprego. Qualquer que fosse. Um salário mínimo, ao menos, para saírem da penúria total.
Quantas vezes reclamamos dos pratos servidos no almoço e no jantar? Sempre a mesma coisa. Parece que a cozinheira está desprovida de idéias ou anda com preguiça.
Entretanto, enquanto almejamos pratos mais sofisticados e variados, milhares, no mundo todo, desejam apenas um prato de comida.
Olhamo-nos no espelho e reclamamos da cor dos olhos. Como seria bom se tivéssemos olhos claros. Ou escuros. Mais esverdeados.
Contudo, inúmeras criaturas aguardam simplesmente a oportunidade de enxergar. Anseiam por uma córnea, uma cirurgia que os libere da cegueira em que se encontram.
Encantamo-nos com as vozes do cantor, do locutor e desejaríamos ter uma voz bonita, cristalina. Ou encorpada, máscula.
Ao nosso lado, porém, caminham muitos que desejariam apenas ter a ventura de falar, em qualquer tom.
Pensamos, olhando nossos pais, que seria muito bom se eles fossem mais esclarecidos, tivessem diplomas universitários, conhecessem o mundo.
Tivessem, enfim, uma visão mais ampla do mundo.
Seria tão bom! Mas, em nosso mesmo bairro, existem dezenas de pessoas que almejariam simplesmente ter pais.
Fossem eles iletrados, analfabetos, pobres de entendimento. Mas que estivessem ao seu lado para amá-los.
Reclamamos da rua barulhenta em que se situa a nossa casa, do cachorro do vizinho que late toda noite, perturbando-nos o sono.
Desejaríamos silêncio. Um bairro tranqüilo, cães disciplinados, ruas sem trânsito. Muito silêncio para nossa leitura, nosso descanso, nosso lazer.
Nem nos damos conta que centenas de criaturas almejam ardentemente, simplesmente ouvir. O que quer que seja. O ruído do trânsito, o apito das fábricas, a gritaria da criançada.
Qualquer coisa, contanto que pudessem ouvir.
Olhamos, com olhos de desejo, as vitrinas abarrotadas de sapatos lindos. Modelos recém chegados. Lançamentos.
Gostaríamos tanto que nosso orçamento nos permitisse comprar um novo par. Afinal, os nossos já andam um pouco gastos e fora de moda.
Enquanto olhamos para nossos pés, desejando novos sapatos, muitos contemplam os próprios membros inferiores, desejando apenas ter pés.
Pensamos num carro novo, mais confortável. Um carro com porta-malas maior, que caiba mais coisas.
Enquanto isso, bem próximo de nós, muitos apenas sonham com a possibilidade de se locomover de um lado a outro com as próprias pernas.
É justo sonhar. É bom desejar melhorar o padrão de vida. Isto faz parte do progresso do ser humano.
Entretanto, que esses anseios não se constituam em nossa infelicidade. Não esqueçamos de valorizar o que já temos.
Valorizemos a possibilidade de andar, ouvir, enxergar, de nos locomover de um a outro lado, por nossa própria conta.
Agradeçamos o emprego que nos permite o atendimento das nossas necessidades.
Sejamos gratos pela nossa família, pequena ou grande. Ilustrada ou não.
Agradeçamos, enfim, a Deus, pelo dom da vida. Por estar na terra, abençoada escola.
Por respirar, por poder abraçar, por ter a quem abraçar.
Agradeçamos simplesmente, por viver este dia.
Autor:
Texto da Equipe de Redação do Momento Espírita
FONTE: http://www.reflexao.com.br/mensagem_ler.php?idmensagem=349
Walcyr Carrasco

A loucura de cada um
Foi-se o tempo em que chamar alguém de paranóico era xingamento
Walcyr Carrasco
O mundo anda tão doido que paranóia se transformou em sintoma de saúde. É incrível dizer uma coisa dessas. Quando era novinho, chamar alguém de paranóico era xingamento dos feios. Algo para cortar relações, no mínimo. Outro dia ouvi uma amiga:
– Estou absolutamente paranóica. Não saio mais de casa.
Alguém da turma se levantou para aconselhar? Pelo contrário. Elogiaram.
– Você faz muito bem – concordou um rapaz.
– Não dá mais para sair de casa.
E aí as histórias começam a ser desfiadas. Um foi rendido quando entrava na garagem.
– Foi uma sorte! Só levaram o carro!
Roubarem o carro agora é sorte? Pois é. Virou sorte.
Outra conheceu um rapaz pela internet. O encontro foi na praça de alimentação de um shopping. Papo maravilhoso. E mais: o sujeito era personal trainer. Corpo malhadíssimo. Barriga de tanque. Ela, trintona e meio fora do peso, nem conseguia acreditar. Ele falou sobre sua atração por mulheres mais velhas. Na despedida, surpresa das surpresas. O rapaz fez questão de pagar a conta. Saiu nas nuvens. Novo compromisso marcado para a noite de sábado. Passou três dias sonhando. Chegou a examinar os armários, imaginando onde ele colocaria as roupas assim que fossem morar juntos. Já estava decidida a se casar e comemorar bodas de prata. Contou a aventura à melhor amiga.
– Sabe onde ele mora? – inquiriu a outra.
Percebeu que tinha dado o número do apartamento, telefone, tudo. Dele, pouco sabia. Havia uma explicação. O rapaz, vindo do interior, aparentemente, não estava nadando em dinheiro. Talvez morasse em uma quitinete. Poderia ter ficado sem jeito de revelar a modéstia de seu endereço.
– Telefone fixo, ele tem? – continuou o questionário.
– Só o celular! – gemeu a apaixonada.
– Vai sair sozinha, de noite, com um cara que só deu o celular?
Passou a noite sem dormir, revolvendo-se na cama. Chorou.
No sábado, a amiga chegou às 4 da tarde.
– É melhor não se arriscar. Venha ao cinema comigo.
Assistiu ao filme pensando nele. Jantaram no japonês. Passaram a noite toda falando sobre como seria bom ter um relacionamento. Mais tarde, no apartamento, teve vontade de chorar. Ele deixara quatro recados na secretária eletrônica.
Lamentou-se com a amiga no dia seguinte.
– Se ele insistiu tanto, é porque tinha má intenção.
– Ou estava gostando de mim – choramingou.
Silêncio constrangedor do outro lado.
– Por que um garotão ia se interessar por você?
Desligou, sentindo-se salva. E absurdamente infeliz.
Dois amigos mudaram-se para uma casa lindíssima. De esquina. Estão cercados por fios eletrificados. Câmeras. Sensores. Segurança na porta. Um cômodo de concreto, blindado, com uma linha telefônica. Só falta chegarem os cachorros, de uma raça feroz. Os filhotes já estão encomendados.
– Não há o risco de os cães devorarem alguma visita? – pergunto timidamente, já pensando em meus próprios fundilhos.
Os dois se olham, pensativos.
– Impossível viver sem proteção.
Há alguns anos, se alguém pensasse em morar cercado por tantos apetrechos, seria até esquisito. Hoje, dá inveja.
Em tempo: segundo o Aurélio, paranóia é "uma psicopatia (...) evoluindo para delírios persecutório e de (...)". Mas a palavra anda mudando de sentido. Só os psiquiatras ainda dizem que é doença. Para simples mortais como eu, virou uma coisa normalíssima. Daqui a pouco, vai se transformar em elogio. Que tempos, hein?
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Vaidade
Florbela Espanca
A um grande poeta de Portugal
Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade !
Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo ! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade !
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita !
Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada !
E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho ... E não sou nada! ...
Livro de mágoas (1919)
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
António Vieira
Fernando Pessoa, célebre poeta português
Sugestão de leitura:
- Sermão da Sexagésima (http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1745 )
- Sermão do Mandato, de 1643 (http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/fs000018pdf.pdf)
- Sermão do Mandato, de 1655
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Digo e re-digo: Cegos
Há dias que não sabemos nada: quem somos nem o que queremos.
Há dias que tudo parece estar errado.
Você do outro lado do rio grita por socorro e aparecem barcos prontos a te ajudar..., mas eles não o vêem. Ninguém te vê.
Sozinho.
Escuro.
Vazio.
Medo.
Medo.
Assim diria o poeta " É solitário andar por entre a gente/ É nunca contentar-se de contente"
Que coisa indigna é essa que nos atrapalha a vida? Insegurança? Covardia?
Honra!? Onde estão os homens amados e honrados?
Onde está a Verdade?
Verdade?
Deus?
Quem é Deus? Eis que te pergunto, dê-me razões, dê-me números.
Fale me de Deus.
É somente Deus que resta e nada mais.
Estou sozinho: eu e eu.
Esse contato próximo comigo me envolve de medo, de um certo pavor... inexplicável.
Medo de mim !
Eis o que sou: um covarde com medo da sombra. Ou será a sombra com medo de um covarde?
Dúvidas. Dúvidas. Dúvidas.
Pontos finais até a última gota de sangue . . .
O que é um ponto final?
O fim? Onde está o começo? O começo termina no fim ou o fim começa no começo?
Perguntas e mais perguntas e não me entendo.
Surrealismo total: viagem ao céu de Dali contemplando as estrelas simbólicas de Meireles, ó grande Cecília - heroína guerreira nessa sútil passagem de um lado para o outro...
Ela bem nos disse que temos um medo, medo de acabar. Mas eu pergunto: no fim ou no começo?
O que precisamos é de Liberté e da alma de Che Guevara, ou quem sabe de algum boêmio que tenha visto a Vida com olhos não pré-ensinados. Sim! Eles - aqueles comportados senhores de gravata e doutores da"vida", da guerra e do mundo - nos ensinam a ver a Vida - da forma mais errônea e ridícula que se possa ousar imaginar.
Miserables! Acabaram com nossos olhos. Estamos cegos, todos cegos.
Ninguém me vê e eu não vejo ninguém.
Estamos sozinhos.
Escuro.
Vazio.
Medo.
Medo.
Paula Cristina
Soneto 003
Camões
Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar me, e novas esquivanças;
que não pode tirar me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças, andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.
Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.
Soneto - Camões
Ah! Fortuna cruel! Ah! duros Fados!
Quão asinha em meu dano vos mudastes!
Passou o tempo que me descansastes,
agora descansais com meus cuidados.
Deixastes-me sentir os bens passados,
para mor dor da dor que me ordenastes;
então nü'hora juntos mos levastes,
deixando em seu lugar males dobrados.
Ah! quanto milhor fora não vos ver,
gostos, que assi passais tão de corrida,
que fico duvidoso se vos vi:
sem vós já me não fica que perder,
se não se for esta cansada vida,
que por mor perda minha não perdi.
FONTE: http://www.bibvirt.futuro.usp.br/content/view/full/1899#114
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Ensinamento
Adélia Prado
Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente,
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.
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Poesia reunida, Editora Siciliano, 1991 - S.Paulo, Brasil
sábado, 7 de fevereiro de 2009
Le Petit Prince

C'est alors qu'apparut le renard.
-Bonjour, dit le renard.
-Bonjour, répondit poliment le petit prince, qui se tourna mais ne vit rien.
-Je suis là, dit la voix, sous le pommier.
-Qui es-tu? dit le petit prince. Tu es bien joli…
-Je suis un renard, dit le renard.
-Viens jouer avec moi, lui proposa le petit prince. Je suis tellement triste…
-Je ne puis pas jouer avec toi, dit le renard. Je ne suis pas apprivoisé
-Ah! Pardon, fit le petit prince.
Mais après réflexion, il ajouta :
-Qu'est-ce que signifie "apprivoiser"?
-Tu n'es pas d'ici, dit le renard, que cherches-tu?
-Je cherche les hommes, dit le petit prince.Qu'est-ce que signifie "apprivoiser"?
-Les hommes, dit le renard, ils ont des fusils et ils chassent. C'est bien gênant! Il élèvent aussi des poules. C'est leur seul intérêt. Tu cherches des poules?
-Non, dit le petit prince. Je cherche des amis.Qu'est-ce que signifie "apprivoiser"?
-C'est une chose trop oubliée, dit le renard. Ca signifie "Créer des liens…"
-Créer des liens?
-Bien sûr,dit le renard. Tu n'es encore pour moi qu'un petit garçon tout semblable à cent mille petits garçons. Et je n'ai pas besoin de toi. Et tu n'a pas besoin de moi non plus. Je ne suis pour toi qu'un renard semblable à cent mille renards. Mais, si tu m'apprivoises, nous aurons besoin l'un de l'autre. Tu seras pour moi unique au monde. Je serai pour toi unique au monde…
-Je commence à comprendre, dit le petit prince. Il y a une fleur… je crois qu'elle m'a apprivoisé…
-C'est possible, dit le renard. On voit sur la Terre toutes sortes de choses…
-Oh! ce n'est pas sur la Terre, dit le petit prince. Le renard parut très intrigué :
-Sur une autre planète ?
-Oui.
-Il y a des chasseurs sur cette planète-là ?
-Non.
-Ca, c'est intéressant! Et des poules ?
-Non.
-Rien n'est parfait, soupira le renard.
Mais le renard revint à son idée :
-Ma vie est monotone. Je chasse les poules, les hommes me chassent. Toutes les poules se ressemblent, et tous les hommes se ressemblent. Je m'ennuie donc un peu. Mais si tu m'apprivoises, ma vie sera comme ensoleillée. Je connaîtrai un bruit de pas qui sera différent de tous les autres. Les autres pas me font rentrer sous terre. Le tien m'appelera hors du terrier, comme une musique. Et puis regarde! Tu vois, là-bas, les champs de blé? Je ne mange pas de pain. Le blé pour moi est inutile. Les champs de blé ne me rappellent rien. Et ça, c'est triste! Mais tu a des cheveux couleur d'or. Alors ce sera merveilleux quand tu m'aura apprivoisé! Le blé, qui est doré, me fera souvenir de toi. Et j'aimerai le bruit du vent dans le blé…
Le renard se tut et regarda longtemps le petit prince :
-S'il te plaît… apprivoise-moi! dit-il.
-Je veux bien, répondit le petit prince, mais je n'ai pas beaucoup de temps. J'ai des amis à découvrir et beaucoup de choses à connaître.
-On ne connaît que les choses que l'on apprivoise, dit le renard. Les hommes n'ont plus le temps de rien connaître. Il achètent des choses toutes faites chez les marchands. Mais comme il n'existe point de marchands d'amis, les hommes n'ont plus d'amis. Si tu veux un ami, apprivoise-moi!
-Que faut-il faire? dit le petit prince.
-Il faut être très patient, répondit le renard. Tu t'assoiras d'abord un peu loin de moi, comme ça, dans l'herbe. Je te regarderai du coin de l'oeil et tu ne diras rien. Le langage est source de malentendus. Mais, chaque jour, tu pourras t'asseoir un peu plus près…
Le lendemain revint le petit prince.
-Il eût mieux valu revenir à la même heure, dit le renard. Si tu viens, par exemple, à quatre heures de l'après-midi, dès trois heures je commencerai d'être heureux. Plus l'heure avancera, plus je me sentirai heureux. à quatre heures, déjà, je m'agiterai et m'inquiéterai; je découvrira le prix du bonheur! Mais si tu viens n'importe quand, je ne saurai jamais à quelle heure m'habiller le coeur… il faut des rites.
-Qu'est-ce qu'un rite? dit le petit prince.
-C'est quelque chose trop oublié, dit le renard. C'est ce qui fait qu'un jour est différent des autres jours, une heure, des autres heures. Il y a un rite, par exemple, chez mes chasseurs. Ils dansent le jeudi avec les filles du village. Alors le jeudi est jour merveilleux! Je vais me promener jusqu'à la vigne. Si les chasseurs dansaient n'importe quand, les jours se ressembleraient tous, et je n'aurait point de vacances.
Ainsi le petit prince apprivoisa le renard. Et quand l'heure du départ fut proche :
-Ah! dit le renard… je preurerai.
-C'est ta faute, dit le petit prince, je ne te souhaitais point de mal, mais tu as voulu que je t'apprivoise…
-Bien sûr, dit le renard.
-Mais tu vas pleurer! dit le petit prince.
-Bien sûr, dit le renard.
-Alors tu n'y gagnes rien!
-J'y gagne, dit le renard, à cause de la couleur du blé.
Puis il ajouta :
-Va revoir les roses. Tu comprendras que la tienne est unique au monde. Tu reviendras me dire adieu, et je te ferai cadeau d'un secret.
Le petit prince s'en fut revoir les roses.
-Vous n'êtes pas du tout semblables à ma rose, vous n'êtes rien encore, leur dit-il. Personne ne vous a apprivoisé et vous n'avez apprivoisé personne. Vous êtes comme était mon renard. Ce n'était qu'un renard semblable à cent mille autres. Mais j'en ai fait mon ami, et il est maintenant unique au monde.
Et les roses étaient gênées.
-Vous êtes belles mais vous êtes vides, leur dit-il encore. On ne peut pas mourir pour vous. Bien sûr, ma rose à moi, un passant ordinaire croirait qu'elle vous ressemble. Mais à elle seule elle est plus importante que vous toutes, puisque c'est elle que j'ai arrosée. Puisque c'est elle que j'ai abritée par le paravent. Puisque c'est elle dont j'ai tué les chenilles (sauf les deux ou trois pour les papillons). Puisque c'est elle que j'ai écoutée se plaindre, ou se vanter, ou même quelquefois se taire. Puisque c'est ma rose.
Et il revint vers le renard :
-Adieu, dit-il…
-Adieu, dit le renard. Voici mon secret. Il est très simple : on ne voit bien qu'avec le coeur. L'essentiel est invisible pour les yeux.
-L'essentiel est invisible pour les yeux, répéta le petit prince, afin de se souvenir.
-C'est le temps que tu a perdu pour ta rose qui fait ta rose si importante.
-C'est le temps que j'ai perdu pour ma rose… fit le petit prince, afin de se souvenir.
-Les hommes on oublié cette vérité, dit le renard. Mais tu ne dois pas l'oublier. Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé. Tu es responsable de ta rose…
-Je suis responsable de ma rose… répéta le petit prince, afin de se souvenir.
Gonçalves Dias
Eu vivo sozinha, ninguém me procura!
Acaso feitura
Não sou de Tupá!
Se algum dentre os homens de mim não se esconde:
— "Tu és", me responde,
"Tu és Marabá!"
— Meus olhos são garços, são cor das safiras,
— Têm luz das estrelas, têm meigo brilhar;
— Imitam as nuvens de um céu anilado,
— As cores imitam das vagas do mar!
Se algum dos guerreiros não foge a meus passos:
"Teus olhos são garços",
Responde anojado, "mas és Marabá:
"Quero antes uns olhos bem pretos, luzentes,
"Uns olhos fulgentes,
"Bem pretos, retintos, não cor d'anajá!"
— É alvo meu rosto da alvura dos lírios,
— Da cor das areias batidas do mar;
— As aves mais brancas, as conchas mais puras
— Não têm mais alvura, não têm mais brilhar.
Se ainda me escuta meus agros delírios:
— "És alva de lírios",
Sorrindo responde, "mas és Marabá:
"Quero antes um rosto de jambo corado,
"Um rosto crestado
"Do sol do deserto, não flor de cajá."
— Meu colo de leve se encurva engraçado,
— Como hástea pendente do cáctus em flor;
— Mimosa, indolente, resvalo no prado,
— Como um soluçado suspiro de amor! —
"Eu amo a estatura flexível, ligeira,
Qual duma palmeira",
Então me respondem; "tu és Marabá:
"Quero antes o colo da ema orgulhosa,
Que pisa vaidosa,
"Que as flóreas campinas governa, onde está."
— Meus loiros cabelos em ondas se anelam,
— O oiro mais puro não tem seu fulgor;
— As brisas nos bosques de os ver se enamoram
— De os ver tão formosos como um beija-flor!
Mas eles respondem: "Teus longos cabelos,
"São loiros, são belos,
"Mas são anelados; tu és Marabá:
"Quero antes cabelos, bem lisos, corridos,
"Cabelos compridos,
"Não cor d'oiro fino, nem cor d'anajá,"
————
E as doces palavras que eu tinha cá dentro
A quem nas direi?
O ramo d'acácia na fronte de um homem
Jamais cingirei:
Jamais um guerreiro da minha arazóia
Me desprenderá:
Eu vivo sozinha, chorando mesquinha,
Que sou Marabá!
Navio Negreiro
Castro Alves
I
'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.
'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...
'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...
'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...
Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.
Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!
Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!
Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!
Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...
..........................................................
Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!
Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.
II
Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.
Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!
O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!
Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...
III
Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!
IV
Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!
E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!
No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...
V
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!
Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...
São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .
São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.
Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...
Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.
Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...
Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...
VI
Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...
Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Companheiros
Mia Couto
quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho
e quando ficar sem mim
não tereri escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados
deixo
a paciência dos rios
a idade dos livros
mas não lego
mapa nem bússola
por que andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me
às vezes
viver
hei-de inventar
um verso que vos faç justiça
por ora
basta-me o arco-íris
em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço
companheiros
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Pequenez...
O Avarento
O Avarento
Um avarento, após transformar em ouro todos os seus haveres, fundiu o metal numa única barra, que enterrou em determinado lugar, enterrando, com ela, a própria alma.
Costumava ir diariamente contemplar seu tesouro. Certo dia, um indivíduo, compreendendo sua tortura, resolveu desenterrar a barra e levá-la consigo.
Quando o avarento retornou ao lugar onde enterrara o ouro, encontrou-o vazio. Pôs-se, então, a chorar e a puxar os cabelos. Alguém que por ali passava, após inteirar-se do motivo de tão grande desespero, disse-lhe:
─ Não se entristeça assim, meu amigo! Embora você tivesse ouro, na verdade, não o possuía. Pega uma pedra, esconde-a no mesmo lugar e imagine que ali está o ouro que se foi. A pedra será para você o mesmo que o ouro, pois, pelo que observei, quando o ouro verdadeiro ali estava, você não o utilizava para nada.
MORAL: Ter e não desfrutar é o mesmo que não ter.
Autor Desconhecido



























